20 de Abril de 2015

A Queda

Um dos passeios oferecidos quando se vai a Foz do Iguaçu é um tour à Usina de Itaipu. Fiz esta excursão há 30 anos como viagem de formatura do 1º Grau (sem comentários, não cabe aqui). A usina, ainda em construção, tinha apenas uma das turbinas em funcionamento. É claro que para estudantes era um passeio obrigatório, levando-se em conta a relevância tecnológica, além, é claro, da necessidade de enaltecimento da Pátria, numa  época  pouco  distante  da  ditadura  militar (estávamos Itaipuem 1986 e Sarney tinha assumido a pouco). A lembrança não era “maravilhosa” (Itaipu não faz parte das 7 maravilhas do mundo moderno), então, nesta viagem com meu marido, ela estava fora de questão … no entanto … as opiniões de outras pessoas … o interesse do meu marido … Acabei me “abrindo” a novas – ou nem tanto – experiências, e lá fomos nós.

O passeio que escolhemos se apresentava como um “Circuito Especial”, com “permissão total para  filmar e fotografar”. Passeio este “premiado pelo Ministério do Turismo como umas das melhores práticas em atividades turísticas”. Oi? Especial pra quem? É pra vc se sentir especial e não se incomodar em pagar uma taxa alta por um passeio pouco atrativo?  Além do pagamento do transporte até a usina – 290 reais! – é, fica longe pra caramba do parque! 1 hora! Bom, o tour começa passando pelo detector de metais – aqueles portáteis que se usam em concursos antes de vc entrar no banheiro – mas havia todo um mise-en-scène para impregnar uma atmosfera de “Segurança Nacional” ao ar. A sra. na minha frente até questionou que poderia entrar com algo na boca, já que o detector só percorria o corpo abaixo dos ombros. Ao que eu respondi que sim, poderia entrar com uma faca entre os dentes… acho que ela não gostou muito da minha resposta: “Lógico que não, mas poderia ser um chip”. Oi? Teoria da conspiração? Acho que eu não me dei muito bem com o grupo… Entramos em um ônibus – com água à vontade, o que para paulista realmente é um luxo! Em algum momento, por alguma razão que eu não captei – acho que é o papo de se sentir especial e tal – tivemos que colocar capacetes que nos faziam parecer parentes do Lec Trec … todos posando para as fotos! uau! Falando em uau, havia toda uma conduta de vestimenta – não podia ir de regata, e bermuda só abaixo do joelho. Será que eles não tinham uma burca pra me emprestar? Não fiz esta pergunta até porque poderia transparecer um preconceito religioso que eu realmente não tenho. Mas o motorista que nos levou até lá fez questão de me explicar o porquê: “Imagine que a mulherada vinha vestida com decotão, roupa justa, sainha curtinha, daquele jeito. O pessoal mexia mesmo. É que nem oficina mecânica, eles mexem mesmo, não tem o que fazer”. Oi? Não tem o que fazer? Onde estamos? “Claro, a culpa não é do agressor, mas do agredido, no caso, a agredida. É a roupa dela que causa a conduta inadequada dele, não é ele que tem um comportamento inadequado”. Para tudo.

Itaipu

Me senti transportada no tempo…não para o meu passeio de 30 anos atrás, pois a minha memória nem dá pra isso…mas para o “Milagre Econômico” de Delfim Neto da década de 70, o qual vivi intensamente, já que nasci em 71 em pleno AI-5, mesmo ano do início da construção de Itaipu. O discurso ufanista era evidente, estatísticas impressionantes – comparação com a quantidade de ferro da Torre Eiffel, concreto do Eurotúnel, produção de 90 de milhões de megawatts-hora/ano, 16 milhões de visitantes, etc, etc… Sobre as mortes durante a construção, o guia sugeriu: “Uma mentira bem contada torna-se uma verdade”. É, a dele. Uma tentativa de explicação de energia alternada e contínua, que, pra quem sabia, não acrescentou nada e, pra quem não tinha ideia, continuou no limbo. Subimos e descemos de elevador, tudo muito engraçado porque o número não representava o andar, mas a altura – ou profundidade – em metros…hahaha.

E sobre Sete Quedas, o desequilíbrio ambiental, as desapropriações? Nada… Um comentário muito vago de que a cidade onde ficava o Salto, Guaíra, fica a 170 km da usina. Mais nada. É mais ou menos como a banimento da palavra “fome” da mídia, na déc. de 70, quando a desnutrição passou de 1/3 para 2/3 da população. Sete Quedas foi a maior cachoeira do mundo em volume de água até seu desaparecimento em outubro de 1982. Na verdade, eram 19 quedas divididas em 7 grupos. Guaíra era um dos destinos turísticos mais procurados por estrangeiros. Inundou-se, durante 14 dias, uma área de 1.500 km² de florestas e terras agricultáveis, desalojando-se mais de 42.000 pessoas, sendo mais de 35.000 trabalhadores rurais, que vieram a se somar ao êxodo rural de mais de 30 milhões de camponeses durante o “milagre brasileiro”, os quais, em grande parte, passaram a integrar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. As cachoeiras podem ser vistas quando o nível da Usina está baixo, como aconteceu entre novembro e dezembro de 2012, como os pés de um cadáver que não se deixa ocultar…

Sete Quedas

“Adeus a Sete Quedas

Sete quedas por mim passaram,
e todas sete se esvaíram.
Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele
a memória dos índios, pulverizada,
já não desperta o mínimo arrepio.
Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes,
aos apagados fogos
de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se
os sete fantasmas das águas assassinadas
por mão do homem, dono do planeta.

Aqui outrora retumbaram vozes
da natureza imaginosa, fértil
em teatrais encenações de sonhos
aos homens ofertadas sem contrato.
Uma beleza-em-si, fantástico desenho
corporizado em cachões e bulcões de aéreo contorno
mostrava-se, despia-se, doava-se
em livre coito à humana vista extasiada.
Toda a arquitetura, toda a engenharia
de remotos egípcios e assírios
em vão ousaria criar tal monumento.

E desfaz-se
por ingrata intervenção de tecnocratas.
Aqui sete visões, sete esculturas
de líquido perfil
dissolvem-se entre cálculos computadorizados
de um país que vai deixando de ser humano
para tornar-se empresa gélida, mais nada.

Faz-se do movimento uma represa,
da agitação faz-se um silêncio
empresarial, de hidrelétrico projeto.
Vamos oferecer todo o conforto
que luz e força tarifadas geram
à custa de outro bem que não tem preço
nem resgate, empobrecendo a vida
na feroz ilusão de enriquecê-la.
Sete boiadas de água, sete touros brancos,
de bilhões de touros brancos integrados,
afundam-se em lagoa, e no vazio
que forma alguma ocupará, que resta
senão da natureza a dor sem gesto,
a calada censura
e a maldição que o tempo irá trazendo?

Vinde povos estranhos, vinde irmãos
brasileiros de todos os semblantes,
vinde ver e guardar
não mais a obra de arte natural
hoje cartão-postal a cores, melancólico,
mas seu espectro ainda rorejante
de irisadas pérolas de espuma e raiva,
passando, circunvoando,
entre pontes pênseis destruídas
e o inútil pranto das coisas,
sem acordar nenhum remorso,
nenhuma culpa ardente e confessada.
(“Assumimos a responsabilidade!
Estamos construindo o Brasil grande!”)
E patati patati patatá…

Sete quedas por nós passaram,
e não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
e todas sete foram mortas,
e todas sete somem no ar,
sete fantasmas, sete crimes
dos vivos golpeando a vida
que nunca mais renascerá.”

Carlos Drummond de Andrade, in Jornal do Brasil, 09/09/1982