22 de fevereiro de 2015

A relatividade da Teoria de Tudo

Ainda no séc. XVII, sabia-se que “dois corpos não podem ocupar um mesmo lugar, no mesmo espaço, ao mesmo tempo”, e, ao longo da história, os teóricos só foram confirmando esta lei e a aplicaram nos mais variados ramos da engenharia, colocando medidas padrão para todos os espaços a serem ocupados, que, muitas vezes, parecem refutar o referido princípio.

Uma pessoa adulta em pé ocupa um espaço de 51 cm x 36 cm, ou seja, aproximadamente 6 pessoas ocupam 1m2. Em um ônibus, chegam a ser 14 por m2! Na média, 9. Isso para aglomerações, ônibus, Ok? Esse é aquele cálculo feito oficialmente. No entanto, quando duas pessoas conversam normalmente, cada uma ocupa um raio de 80 cm. Existe um espaço invisível para que os interlocutores se sintam seguros e à vontade e, naturalmente, ninguém invade o espaço do outro. Esse limite é uma questão de respeito. Quanto maior a intimidade, menor o espaço entre as pessoas. Nem sempre…

A classe econômica nos aviões oferece poltronas com largura de 45 cm (a largura dos ombros!) e distância de 67 cm entre uma fileira e outra (para esticar as pernas!). O que, evidentemente, propicia calor humano além da conta, bem além da conta… A privacidade passa a ser algo desejável, mas impraticável. Os cotovelos devem seguir colados ao corpo, mesmo (e principalmente) durante as refeições. Vc pensou num tiranossauro rex? É como eu me sinto… Cuidado ao abrir o molho para salada (por que eles dão isso?), pois vc pode sujar a roupa, do vizinho! Os potinhos e copos, depois de vazios, voam com facilidade, para o vizinho! O guardanapo cai nos pés, do vizinho! Ah! Mas essa aproximação tem lá as suas vantagens. Quer mais sal? Peça para o vizinho! Não quer a sobremesa, ofereça para o vizinho! O espaço ideial para encostos paralelos é de 1 M, mas 80cm são aceitáveis (não 45!). E para cadeiras à frente, 90 cm (não 67!).

Especialistas indicam que o espaçamento ideal para separar mesas de bares e restaurantes é entre 70 e 120 cm. Mas isso, efetivamente, é relativo. Em Paris, os cafés e restaurantes nem passam perto disso. Eu disse perto? É, bem perto. Na Brasserie Lipp, o garçom puxa a mesa  para que vc possa se sentar e ficar (presa!) até pagar a conta; quando, gentilmente, ele puxa a mesa para vc sair. E se vc quiser ir ao toalete tem que avisar todo mundo! No Le Deux Magots, fui mais esperta, peguei uma mesa de canto e por lá podia escorregar. No Le Procope, empurrei um pouquinho, escorreguei um outro tanto, e, ufa! escapei. No La Coupole, até trocamos risos com os comensais ao lado, quando o maître descobriu o cão, sob a mesa, roendo as luvas da dona! E não pense que é diferente no Le Jules Verne na Tour Eiffel! E se vc tentar se esgueirar pelo canto e enroscar na toalha de mesa, levando junto as taças? Vexame! No Café des Deux Moulins, quase levei o creme brûlée das orientais ao lado!

Pesquisas mostram que os paulistanos não se sentem confortáveis em compartilhar a refeição com um desconhecido, mesmo que as praças de alimentação dos shoppings venham destruindo o conceito de privacidade (ou fobia?).