7 de Março de 2016

“Benvenuti al Sud”

Napoli é a cidade italiana do nosso imaginário. É aquela dos filmes de Sophia Loren e Marcelo Mastroiani da década de 60 a que tanto assistimos. É lá que estão os varais de roupa que atravessam as ruas no famoso Quartieri Spagnolo, uma das áreas mais populosas da cidade. Este bairro, aliás, foi assim denominado porque as tropas espanholas, no século XV, aqui se estabeleceram e construíram suas casas, “amontoadas” umas às outras, em ladeiras estreitas e sinuosas. Andando pelo bairro, vi, como numa cena de filme de Luca Miniero, um balde descendo lentamente na frente de uma casa, e, lá embaixo, uma garota tirando dele um sanduíche, e acenando para a senhora na janela, provavelmente sua mama. (Primeiramente, achei que o balde estivesse caindo, mas só se fosse em câmera lenta, né? Ver uma cena real dessa ao vivo não tem preço!) Os varais, as plantinhas nas varandas, tudo parecia gracioso e alegre, num dia de inverno pouco frio e muito ensolarado. Não sei se o dia a dia é tão pitoresco assim…

Quartieri Spagnolo

É lá também que estão o trânsito caótico e barulhento, a mafiosa rede Camorra, o maior desemprego e pobreza da Itália. Mas também a melhor mozzarela di bufala, o canolo, o pan dulce – típico bolo natalino – e a melhor pizza. Aliás, a vera pizza napolitana merece uma reflexão mais demorada. Pra mim, pizza é sempre boa – era o que eu dizia até comer uma pizza num quiosque numa estação de metrô em Budapeste e descobrir que eles não sabem o que significa esta palavra. Mas, na Itália é um assunto sério, e em Napoli seríssimo. Um napolitano é capaz de discorrer horas sobre as características da pizza perfeita sem nunca ter sequer pisado numa cozinha. Há uma rivalidade entre duas pizzarias que se consideram as precursoras, logo, as melhores. Mas pra que briga? Vamos às duas mesmo. Uma é L’Antica Pizzeria Da Michele. É, é aquela do filme da Julia Roberts, que já te ensinou que pizza na Itália come-se com as mãos e não com garfo e faca como aqui em São Paulo. O cardápio é muito sucinto – marinara, marguerita e marguerita com doppia mozzarela. Para beber, cerveja. É, no sul, bebe-se cerveja com pizza. Nem adianta pedir vinho porque não tem (meu marido tinha que pedir!) Se não quiser cerveja, vá de água ou fanta laranja – que é muito comum na Itália, é uma fanta com uma cor alaranjada bem mais clara que a nossa – em copos descartáveis. Uhhuumm! Bom demais. A rival é a Pizzeria Da Brandi que se envaidece ao dizer ter inventado a pizza marguerita. Numa visita da rainha Marguerita, isso há uns 200 anos, o pizzaiolo resolveu criar um sabor com as cores da Itália – mozzarela branca, tomate vermelho e manjericão verde – em homenagem à rainha. Lá, vc vai encontrar um cardápio muito mais recheado, tem a pizza, claro, mas também deliciosas massas, cerveja, mas também vinhos de qualidade, e sobremesas. Qual a melhor? Pra que a briga? Que coisa chata essa de ser a melhor, vá cada vez em uma, pronto!

Da Michelli

É, ainda, na capital da região da Campagna que está um dos museus arqueológicos mais importantes do mundo, o Museo Archeologico Nazionale, uma joia pouquíssimo visitada pelos turistas que utilizam a cidade apenas como um ponto de partida para as ruínas de Pompeia e Erculano, sem se aterem a este riquíssimo acervo de peças retiradas das cidades soterradas. Aqui encontra-se um impressionante mosaico da Casa dos Faunos de Pompeia, quase totalmente recuperado, A Batalha de Alexandre, que retrata a vitória de Alexandre, o Grande, sobre o imperador persa Dário III (333a.C.). Você também pode visitar A Sala Secreta, onde estão as obras eróticas de Pompeia e Erculano, que causavam constrangimento na época dos Bourbons, mas hoje nos permite sua apreciação e reflexão de como era visto o sexo por antes da ideia de pecado instituída pela Igreja Católica.

Ame ou odeie, ninguém fica indiferente à fervilhante Napoli, fundada pelos gregos, ampliada e melhorada pelos romanos, e uma das poucas cidades antigas da Europa que não foi totalmente destruída.

Benvenuti al Sud