14 de agosto de 2015

“Cuidado com a tristeza. Ela é um vício.” Flaubert

Encontrei-me com Madame Bovary, considerado um maiores romances do Realismo, algumas vezes na minha vida. A primeira e mais impactante foi sem dúvida no meu curso de introdução à literatura na faculdade de Letras: onde eu ia, madame ia também. E… foi ódio à primeira vista. A gente não se entendia, ela era entediante demais, chata ao extremo. Mas tive que me arrastar e, como uma náufraga a atingir a praia quase sem fôlego, virar a última página do livro. De lá para cá, foram muitas outras incursões no mundo de Emma e Charles. Sempre que havia a oportunidade na faculdade de escolher este romance, eu o escolhia. É necessário dominarmos o inimigo! E… nos apaixonamos! Até no curso de francês na Aliança, escolhi lê-lo. Muitos anos depois do término da faculdade, adquiri uma nova edição em que foi publicada a célebre defesa do advogado de Flaubert, Sénard, que, com a maior habilidade, transformou o réu, acusado de ofensa à moral pública e à moral religiosa, em “educador”, que edifica os valores da sociedade, e não que a ridiculariza.

Madame Bovary

Na última viagem à Paris, mergulhei ainda um pouco mais nesse contexto pequeno burguês do séc. XIX, e fomos conhecer Rouen. A cidade, capital da Alta Normandia, no noroeste da França, fica apenas a uma hora de trem de Paris. Descendo na estação, caminhe pela avenida principal e chegue ao Office de Tourisme, onde vc pode alugar um audio-guia pela bagatela de 5 euros e fazer um encantador passeio a pé pelos principais pontos da cidade. O tour se inicia no próprio prédio onde está instalado o Office, em que Monet teve um estúdio temporário (entre 1892 e 1893) para pintar a série de telas impressionistas da Cathédrale Notre-Dame de Rouen, que se situa em frente, em estilo gótico, cuja construção iniciada em 1145 só foi concluída no séc. XV. (Não, não tinha ninguém “Atrás da Catedral de Ruão”, fui dar uma espiadinha…) Então, vc prossegue até o Gros-Horloge, de 1610, instalado num arco sobre a rua, contemplando pelo caminho as casas com suas estruturas de madeira típicas da região da Normandia e termina na igreja da mais célebre personagem de Rouen (não, não é madame, é Joana d’Arc), que morreu em Rouen em 1431, aos 19 anos. Jeanne, chefe militar na Guerra dos Cem Anos, foi canonizada pela Igreja Católica em 1920 (5 séculos após ter sido queimada viva). Tem ainda umas outras coisas bem legais pelo caminho, dentre elas algumas meio mórbidas numa vilinha: um gato empalhado, uns ossos…

Monet - Cathédrale de Rouen

Infelizmente, pouco se fala de Emma Bovary e de seu criador, que nasceu na cidade de Rouen em 1821. Gustave era de uma família burguesa – a mesma que povoa seus romances – filho de um cirurgião (Charles?), teve dois casos amorosos, ambos com mulheres mais velhas e casadas, morreu subitamente – provavelmente vítima de um AVC – em 1880 em Croisset, e foi sepultado no Cemitério Monumental de Rouen. O escritor demorou 5 anos para concluir aquele que seria o principal romance de sua vida, publicado, primeiramente, em episódios, com alguns cortes, na revista Revue de Paris, cujo diretor respondeu ao mesmo processo que Flaubert. A obra, que tinha como subtítulo Costumes do interior, e cuja temática é o adultério feminino (!), apresenta um aspecto realista e de análise psicológica das franquezas humanas inéditos até então. Servirá como inspiração para outras obras literárias, como Anna Karenina de Tolstói (1875) – morte péssima – e O Primo Basílio (1878) de Eça de Queiroz, cuja personagem principal (heroína?) morre de febre  – !bah! péssimo!

Gustave Flaubert

Madame Bovary teve várias adaptações para o cinema – acho que deve sair o quarto filme este ano. Assisti ao francês de 1998 com Isabelle Huppert (e não, ela não chega aos pés da Emma de Flaubert) e, agora, Gemma Bovery, com o subtítulo A vida imita a arte. É uma adaptação de uma graphic novel de mesmo nome da ilustradora inglesa Posy Simmonds que se inspirou em Madame. Um vizinho voyeur – o sempre bom ator francês Fabrice Luchini – um ex-editor “refugiado” como padeiro na Normandia, mescla seu fascínio pelo romance e pela musa Gemma, tendo como ponto de intersecção a tristeza. Não, não, ainda está muito longe… A morte de Emma, sim, é uma das mais belas da Literatura – meu psicanalista ficou um pouco inquieto com essa minha declaração.