17 de junho de 2015

Dedo podre

Não, não estou me referindo às escolhas amorosas, até porque, neste quesito, posso me considerar uma afortunada (beijos, amor!). Estou falando daquele sinalzinho que se faz para chamar um táxi. É, aquele gesto antigo, com o braço esticado e o dedo indicador mais ainda, que vc faz para parar o táxi na rua, ou o mais moderno, em que vc tecla (com o mesmo dedo) no app do celular. É, é este aí! Não importa, a forma pode mudar, mas o dedo continua fazendo a escolha errada. Desde o clássico taxista que entende tudo sobre política-economia-sociologia-filosofia (e outras ciências), que faz questão (por generosidade, claro) de compartilhar seus conhecimentos elevadíssimos com vc, não importando a duração da corrida, pois ele possui uma capacidade de síntese (ou explanação, se necessário) nunca dantes observada em educador algum! Vc pode fingir uma leitura, uma navegação ou conversa no celular, tanto faz, ele está disposto a ampliar as suas fronteiras provincianas e lhe contagiar com sua iluminação. Passando pelo velhinho que te pega na porta do hospital, dirige, sem cinto e fumando, um carro caindo aos pedaços, para no meio da rua e pede pra vc “descer rápido porque lá é muito ruim de parar” (lembra? vc está saindo do hospital!) porque ele não quer pegar trânsito para voltar. Até o lusitano (era da Terrinha, o que eu vou fazer?) que chega a sua casa por meio do aplicativo, mas que, para chegar ao destino, dá uma paradinha na esquina e pega (o que no porta-luvas? o quê?) o guia de papel! Tem também aquele que para na esquina da sua rua (que é mão única) e fica buzinando para vc ir a pé até lá (se eu quisesse ir a pé eu não teria chamado um táxi! oi?), e aquele que não tem troco, não aceita cartão, nem cheque, e que não é daquela região, só estava passando, viu o ponto vazio e resolveu parar, mas ele não e de lá não….

táxi sp

Bom, a lista é infinita, mas felizmente isso só acontece em São Paulo. É, isso mesmo, meu dedo perde o efeito (ou o defeito) quando cruzo as fronteiras desse imenso país! Não tenho nenhuma história trash de táxi no exterior. Não, não, eu pego mais táxi quando estou viajando do que em São Paulo. Não quero perder tempo numa viagem, esperando ônibus ou fazendo deslocamento malucos, além do que essas despesas já estão programadas no orçamento. Aqui em São Paulo as atividades externas já contam com este tempo (ou desperdício de), é a minha rotina. E táxi, para nosso bolso brasileiro, não dá pra entrar na contabilidade rotineira.

Tenho histórias engraçadas, como aquela do taxista lusitano (estávamos em Lisboa, tá?) que, quando perguntado onde se podia ouvir uma boa música portuguesa, nos respondeu: “ora, comprando um bom cassete, pois” (estávamos na década de 90, era usual ainda fita-cassete, viu?) E não, não estou fazendo chacota dos portugueses, estou apenas reproduzindo o estilo um pouco óbvio, eu diria, dos colonizadores (né, amor?) Ou aquela em que entramos num táxi (com plaquinha de táxi), no ponto de táxi, na frente do mercado em Santiago do Chile, e entraram outras pessoas por todos os lados. Ufa! não, não era um sequestro, era apenas um “colectivo”. Ah! não, ele também não ía para onde queríamos, tivemos que descer e pegar um privativo em outro ponto. Tem os uruguaios que, por medo de ataques terroristas muito comuns em décadas passadas (foi o que o taxista me disse), separam o motorista dos passageiros por um vidro, mas que eles mantém abertos, assim como nos icônicos yellow cabs de New York. E os de Lima? Há os autorizados e os não autorizados. Não existem placas de limite de velocidade, e eles dirigem feito loucos, reduzindo e passando no cantinho das lombadas, com o braço para fora da janela, sem cinto, falando ao celular…Me senti no “Sr. Volante!” com o Pateta! E isso os autorizados, inclusive aqueles chiques que ficam na porta dos hotéis. Não há metrô e o trânsito é um caos!

sr. volante

Mas há o outro lado da força … o da extrema gentileza. Em Londres, os nostálgicos black cabs têm um espaço imenso na frente (cuidado para não cair! Não, eu não caí não, só estou avisando) e a cordialidade londrina dos motoristas. Um deles nos deu altas dicas, mesmo com nosso horrendo inglês, e, como um verdadeiro lord, recusou, com orgulho, uma gorjeta. Em Barcelona, outro nos tirou de uma roubada! Estávamos vindo de Madri, e o trem ficou 4 horas parado no meio do percurso por causa de um acidente na linha. Chegando de madrugada na estação, receamos pela continuação da nossa viagem… Mas, tudo certo! Tinha táxi, era grande (estávamos em 4), o motorista era gentil e compreendia nosso portunhol, etc. Ao dizer onde ficava o nosso hotel, ele ficou ressabiado e disse que era muito incomum hotéis daquele tipo (era um hostal) e naquela região (Quartier Gothic) fazerem reservas, mas ele nos levaria até lá. Dito e feito, não havia reserva nenhuma, e o bairro era estranhíssimo, cheio de malucos na rua. Pelo rádio, ele solicitou à Central uma reserva num hotel mais ou menos próximo e um pouquinho melhor só para passar aquela noite, já que não eram mais horas de se procurar hotel, e nos indicou em qual região deveríamos nos hospedar a partir do próximo dia. Ajuda providencial … divina?!

black cab