30 de junho de 2016

Digno de James

Dizem que o humor dos italianos vai diminuindo à medida que se sobe pela bota, talvez em função da temperatura que cai ou do desejo dos italianos de se sentirem superiores – não resisti ao trocadilho, sorry. Em Napoli, realmente encontrei um enorme bom humor; são todos sorridentes, expansivos, calorosos, o que pode trazer alguns “percalços”, como receber de troco uma nota falsa de 50 euros após algumas taças de vinho, pois, entre sorrisos e cortesias, ninguém conferiria a nota, não é mesmo?

Isso realmente foi se comprovando na nossa viagem. Em Firenze e adjacências já ficou difícil… a galera não era muito de sorrisos ou gentilezas. Em Veneza, então, nem se fala, para pedir informações com meu parco italiano tinha que torcer para não ouvir impropérios! De Veneza partimos para Cortina d’Ampezzo nas Dolomitas e ficamos bem receosos com o humor que encontraríamos por lá, afinal, além de ser o lugar mais longevo, era também o mais frio. Para chegar a Cortina, vc já encontra uma série de obstáculos, de trem tem que fazer um monte de baldeações e em Cortina nem tem estação, o último trecho precisa ser feito de ônibus mesmo. Mas de Veneza há um ônibus que vai direto (um só por dia, se perder esse, babau), porém encontrá-lo na estação de Veneza Mestra pareceu mais um game, pois ninguém estava muito interessado em me dizer de onde saía a porra do ônibus. Por fim conseguimos, e a viagem em si é um espetáculo à parte, as paisagens que vão se descortinando em Cortina – trocadilho ridículo – são de perder o fôlego. As Dolomitas são espetaculares! São realmente tudo aquilo que vc viu em Cassino Royale e muito mais! A cada curva do ônibus – pois a estrada é bem sinuosa – ouviam-se exclamações! Mesmo que vc não vá esquiar ou pernoitar por lá, só esta viagem já vale a pena.

Cortina d´Ampezzo

Chegamos ao destino, e a escala de humor furou! Foi o lugar onde tivemos a melhor recepção, as pessoas eram bem humoradas e simpáticas na medida certa. Chegamos à estação de ônibus e o táxi, que já estava ocupado, chamou outro para nos levar ao hotel, e assim continuamos nos relacionando bem com os táxis, que foi como circulamos pela região: ir às estações de esqui, aos restaurantes, etc, etc. No hotel, tinha uma recepcionista simpatissíssima, treinando seu português, que nos deu altas dicas, onde esquiar, onde fazer comprinhas e fez reserva num incrível restaurante sardo (Leone & Anna) – segundo ela, o melhor da cidade, e, para nós, a melhor refeição que fizemos na Itália. Aliás, o hotel (Grande Hotel Savoia) era uma graça; apesar de ser um prédio, o nosso quarto parecia com a cabana do Daniel Boone, com ares muito mais tiroleses do que italianos – quem assistiu a Candelabro italiano vai se lembrar da arquitetura alpina do filme –  e ainda podíamos usar o spa do hotel chiquésimo que ficava do outro lado da rua. Para isso, usávamos uma passagem subterrânea para chegar lá, só tinha um senão, não podíamos ir só de maiô e roupão, pois era muito frio, tínhamos que ir com toda a roupa e nos trocarmos no vestiário de lá, mas fomos prontamente avisados disso pela recepcionista. Meu, era muito, mas muito frio mesmo, mais até do que ao ar livre. A passagem na verdade era a garagem comum dos dois hotéis. Para chegar ao spa, tínhamos que ir seguindo setas amarelas no chão e passar por várias portas corta-fogo, e as luzes se acendiam conforme nos aproximávamos, revelando espaços enormes e vazios, uma coisa meio aterrorizante… Imagem só, nós, só de roupão, encontrados congelados na garagem subterrânea porque tínhamos nos perdido no escuro labirinto? Meio trash… Coisa de emergente, né? Pode usar o spa, mas tem que entrar pela porta dos fundos… E a volta era bem pior, já que tínhamos “cozinhado” na jacuzzi e ainda estávamos com os cabelos molhados, quase virando estalactites (ou seriam estalagmites?)

Cortina d´Ampezzo

A paisagem é deslumbrante, e a região das Dolomitas tem uma infinidade de estações de esqui. Escolhemos Socrepes – que sediaria os jogos de inverno nos dias subsequentes  – para passar o dia. Meu marido ficou louco, subiu e desceu um milhão de vezes – de novo, de novo, de novo! – enquanto eu, congelando – mais ou menos, a maior parte do tempo tinha um sol agradabilíssimo – e lendo a biografia de Michelangelo, alternava entre uma cerveja e um chocolate quente.

Cortina d´Ampezzo

Bom, a sua viagem pode ter a cara das aventuras de 007 ou o romantismo de Candelabro Italiano. Escolha a sua! Ou faça as duas!!