8 de março de 2015

Em busca da vagina perdida (ou L’Origine du monde)

Seguindo os passos do protagonista de Como me tornei um estúpido de Martin Page, 2005, qualquer aprendizado, para mim, envolve teoria, leitura … e prática. Assim, enveredei por um Curso de Introdução à História da Arte no Masp para conhecer um pouco mais sobre os ismos (Impressionismo, Surrealismo, Cubismo…) antes de ir a Paris. E lá estudei L’Origine du monde de Courbet, pintado em 1866, por encomenda de um diplomata turco e depois indo parar nas mãos de Lacan (nada a dizer, piada pronta), cuja família o doou ao Museu D’Orsay quando de sua morte.

P1030448Assim, munida de “todo meu conhecimento artístico”, adentrei o d’Orsay atrás da origem do mundo. Peguei o mapinha do museu que destacava a tal tela e fui seguindo as indicações até, até…ops! tinha uma outra exposição no lugar…não, não é possível, uma tela com uma relevância desta não pode ser retirada para ceder lugar a uma exposição temporária (imagine ir ao Louvre e a Mona Lisa ter ido dar um rolê em outra freguesia?!). Perguntamos aos seguranças. – Sim! Ela tinha ido para outras paragens. Suíça. Talvez uma sociedade mais aberta (?!)

Para minha surpresa, esta semana, a Exame.com publicou uma notícia sobre um professor francês, cuja identidade se manteve em sigilo, que teve seu perfil exluído do Facebook por ter feito uma selfie com a tal vagina de fundo! (Sensacional! Aliás tenho feito uma campanha pela primeira selfie, aquela, a original, com o bebê saindo da vagina… Não, ninguém gostou, até porque todo mundo no Brasil nasce de cesárea; vou tentar minha campanha em outro lugar.) Mas o professor fez justamente esta foto, quer dizer, com alguns anos de atraso, sim, mas a selfie – quase- original! No entanto, o Facebook não gostou… disse que é obsceno… que eles não têm condições de separar obra de arte de pornografia… O professor revidou, processou, o Facebook disse que a justiça não pode julgar, o Tribunal francês trucou, vai julgar, sim! (Caso semelhante ocorreu em 2011 com o artista dinamarquês Frode Steinicke, que teve seu perfil reativado sem a dita foto…)

Tá, tudo bem, é um contrato, cada um tem suas regras a cumprir, etc… as duas partes aceitaram conscientemente… Mas a tela é de 1866 (quase 150 anos!) Será que é por causa dos pelos pubianos? Todo mundo se lembra do furor causado por Claudia Ohana na Playboy! Há alguns anos fiz um trabalho na Pós da Eca comparando a mulher objeto de duas propagandas de lingerie, publicadas na mesma revista, com um lapso de 50 anos. Infelizmente, achei poucas diferenças. O professor achou o texto meio panfletário (tá, tudo bem, pode ser mesmo) mas não revidou aos argumentos…

Hoje, Dia Internacional das Mulheres (um dos dias mais melancólicos do calendário pra mim), mais de 100 anos após a morte de 125 mulheres carbonizadas numa fábrica de Nova York, acho que há algumas coisas a se pensar…

P.S. Como não fiz contrato nenhum, em solidariedade ao tal professor, aí está a origem do mundo