8 de janeiro de 2015

“Eu sou contra a tolerância,

porque ela não basta. Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro. Sobre a tolerância já fizemos muitas reflexões. A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.” José Saramago

Quando estive em Paris há alguns dias, vi a edição que estava nas bancas (La véritable historie du petit Jésus) do semanário Charlie Hebdo. Fiquei positivamente admirada pela irreverência que levava às últimas consequências a máxima de Molière (“Ridendo, castigat mores”), tão utilizada por Gil Vicente. Infelizmente, essa publicação francesa passou a ocupar todas as mídias por um dos maiores ataques da história à liberdade de expressão.

A divisão entre os grupos étnicos é evidente na Europa. Andando pelas ruas de Paris, vimos franceses, muçulmanos, indianos, africanos, coreanos… Mas, infelizmente, não vimos casais multirraciais, grupos heterogêneos, uma verdadeira miscigenação. Eles parecem viver paralelamente, e não se relacionarem de fato.

Como turista latino-americana, senti o preconceito na pele, advindo de uma atendente (estrangeira) em uma casa de chá. Ao ouvir o nosso terrível francês, ela passou a nos atender em espanhol. Simpático tentar se comunicar de forma mais clara. Ao pagar com uma nota de 100 euros com um carimbinho, a moça questionou a autenticidade da mesma. Será que seu não fosse brasileira, haveria a mesma desconfiança? Simpaticamente, a francesa ao nosso lado, esclareceu a desavisada. Aquele carimbo, que poderia ser lido com uma caneta especial (se ela, ou o estabelecimento, tivesse uma), demostrava a autenticidade da nota. Eu não tinha todas essas informações, só sabia (porque vi) que era uma marca feita na casa de câmbio. Fiquei muito feliz por essa pessoa se relacionar comigo e não apenas me tolerar.

Je suis Charlie, nous sommmes Charlie

Je suis Charlie