10 de Abril de 2016

Gulodices da Toscana

Na época em que eu prestei Letras na USP, o vestibular era diferente, vc não prestava Letras, e só depois do primeiro ano escolhia o idioma, após o ranqueamento por nota, como é hoje. Vc já prestava a língua que queria e podia fazer três opções na ficha de inscrição do vestibular. Minha escolha foi alemão, francês e italiano, nessa ordem. Na primeira chamada, passei! na terceira opção… Fui fazer a matrícula, claro, mas só conseguia pensar em comida: gnochi, pizza, pasta, etc, etc, etc… E é mais ou menos esse o nosso pensamento quando falamos de Itália. Ao voltarmos da Bela Bota, a primeira pergunta que todos fazem é se a comida é assim maravilhosa mesmo.

Gastronomia é uma coisa seríssima pros descendentes de Cesar. Quando fiz o curso de italiano aqui em São Paulo, minha professora – sarda – disse que era incompreensível para um italiano ser convidado pra jantar na casa de um paulista e ele ligar pro disk pizza! Quebrar o espaguete então, nem se fala! Comê-lo com colher? Só para crianças! Capuccino com chocolate? Só em São Paulo. O verdadeiro é um café – forte,claro – com uma coroinha de leite, assemelhando-se à careca do capuchinhos! Molho à bolognesa não existe, é um ragu, com muuuuita carne – bem diferente do nosso, que é um molho de tomate com um pouquinho de carne. Bife à parmegiana? Esquece, nunca ninguém ouviu falar.

Trattoria Gabriello

Na Toscana, é só vc sentar à mesa, e lá vem a cestinha – não tão inha – de pães. Uma particularidade da região é que o pão é feito completamente sem sal. Isso porque ele não é o astro da refeição – como a baguete francesa, que pode ser devorada sozinha. Ele serve apenas como um veículo para frios, queijos, antepastos e a própria refeição. Em Firenze, fizemos nosso primeiro almoço na histórica Tratoria Gabriello, onde descobri a sobremesa dos sonhos – cantucci com vin santo. Uhhuummm! Cantucci é aquele biscoito com amêndoas super duros que, em São Paulo, às vezes, vem acompanhando o café. Aí descobri o porquê dele ser tão duro. É que ele deve ser mergulhado no vinho que vai preencher os seus buraquinhos, tornando-o mais macio, mas não molenga. É demais! Comi vários na Toscana, mas só na Toscana, não o encontrei em outros lugares. Na Itália é assim, vc dificilmente encontra um mesmo prato no país todo. Um italiano não é só um italiano, ele é, acima de tudo, toscano, romano, siciliano, sardo… De prato principal, fomos de bisteca fiorentina (outro clássico que vc só encontra em Firenze), acompanhada de um vinho de Bramasole (é, aquela!).

Ricasoli

Outra sobremesa incrível – adoro essa parte; na verdade, a refeição é só um pretexto pra poder chegar aos doces – foi a cassata, que comi no Antica Locanda dell´Angelo (1414), em Lucca. Em nada lembra a que comemos aqui em São Paulo – cheia de açucaradas frutas cristalizadas (eu sei que a cristalização das frutas é um processo feito com açúcar, logo açucaradas, mas não precisa exagerar!). Na Osteria del Teatro, em Cortona (linda!), o destaque foi o pimenteiro gigante. Da ponta de uma mesa com 8 pessoas, o garçom conseguia moer a pimenta no prato de todos sem sair do lugar (percebi que ele se sentia poderoso com este elemento fálico beeeeemmm exagerado). Engraçadíssimo! Ah! a comida? Perfeita, meu marido se esbaldou nas trufas (Arght!), e eu, mais contida, comi um delicadíssimo fagotini caprese. Na Cantineta Antinori, em Firenze, iniciei com muzzarella de bufala, passei pelo linguini com carciofi – eles adoram alcachofra! – e terminei com o estupendo cantuccini. Vou morrer de comer esse negócio!

Mas não é só de pratos clássicos que vive a gastronomia italiana não! Nós é que somos mais resistentes a provar pratos inovadores – provavelmente porque sonhamos com os originais a vida toda, cansados de comer suas imitações. No restaurante da Adega Ricasoli, comi uma mousse de abóbora com pecorino que era um manjar dos deuses!

Nerbone

Na Itália, dificilmente um restaurante funciona direto do almoço até o jantar. Até nos cafés que funcionam direto, a cozinha fecha, dando-lhe a opção apenas de tomar café acompanhado por um doce (aliás, o que italiano come de doce não tá escrito no gibi;  o café vem sempre com um cornetto – uma espécia de croissant – nunca com um salgado). Mas se o horário do almoço já passou, e os restaurantes fecharam, não se desespere, tem sempre uma lanchonete deliciosa por perto. Em Firenze, “tivemos” que ir na Il Cernacchino, pois, ao sair da nossa saga no Bargello, todos os restaurantes já estavam fechados, e nós estávamos morrendo de fome! É um lugarzinho minúsculo, mas com sanduíches incríveis – comi um panino de salame com pecorino e mostarda de figo que nunca vou esquecer! Para orçamento curto, também valem os mercados. No de San Gimignano, comi um sanduíche que mataria a fome de meio mundo. Em Firenze, o Nerbone (1872), no famoso Mercato Centrale, é uma instituição. Tem tripas como carro chefe, que meu marido mandou ver, mas eu, sempre mais conservadora, fui de risoto de funghi. Não é assim uma brastemp, mas a relação custo-benefício é ótima. Outra ótima opção são os supermercados – nem tão super por aqui – onde vc pode comprar azeitonas firmes e verdíssimas (bem diferentes das moles e desbotadas daqui), queijos variadíssimos (um gorgonzola de colher com sabor delicadíssimo!), tomates secos (com gosto de tomate!), presunto cru, chocolates, cerejas, berries…

Sim, a cozinha italiana é tudo isso e muito mais, é só se deliciar!

P.S. Em tempo, na segunda lista da Fuvest, passei na minha primeira opção: alemão: wurst, sauerkraut, kartoffeln…