27 de agosto de 2015

L’Âge de mûr – Camille Claudel

Meu primeiro contato com Auguste Rodin foi por meio do filme Camille Claudel, de 1988. É, eu sei… foi tudo errado… de cara já agarrei um ódio naquele barbudo! Argh! O filme é um sofrimento só! Em 175 longuíssimos e arrastados minutos, a linda – e triste e descabelada – Isabelle Adjani – sofre, sofre e… sofre! Numa atmosfera sombria e mórbida, o longa – sempre no escuro – tenta dar conta da vida e da obra da escultora, que, infelizmente, obteve mais fama como a amante de Rodin do que por seu belíssimo trabalho.

Camille Claudel

Ao ser contratada como aprendiz com apenas 19 anos pelo mestre Rodin, Camille passou a colaborar em grandiosas obras do escultor – que estava bombando na época – como Porta do InfernoOs Burgueses de Calais (cidade francesa que ganhou destaque na mídia nos últimos tempos por conta dos refugiados que tentam chegar ao Reino Unido). A proximidade da habilidade e da técnica de ambos era tal que se chegou ao ponto de não se distinguir a obra de um e de outro, colocando-se em dúvida a autoria de algumas peças. A jovem se tornou amante de Rodin (25 anos mais velho), que mantinha um relacionamento com Rose Beuret – desde seus tempos de penúria – com quem teve um filho e viveu até o fim da vida. A artista caiu em desgraça na sociedade parisiense: Rodin mantinha um apartamento em Paris (“o retiro pagão”) para sua amante viver e juntos frequentavam lugares públicos. Depois de 15 anos, torturando-se num relacionamento destrutivo (em 1892, Camille sofreu, inclusive, um aborto) separaram-se, e ela passou a produzir obras com um certo distanciamento das anteriores, como A Valsa, A Pequena Castelã e A Idade da Maturidade (1899 – 1913), considerada sua obra mais autobiográfica, ilustraria a indecisão de Rodin entre a sua companheira e sua jovem amante. Mas enlouqueceu. Acreditava que Rodin conspirava contra ela, querendo atribuir a si suas obras. Diagnosticada como portadora de delírio paranoico, foi internada à força num hospício, por iniciativa de seu irmão mais novo, o escritor – um dos grandes da sua geração – Paul Claudel, onde permaneceu por 30 anos, e morreu, sozinha, aos 79 anos, em 1943.

A valsa

Uff! Não, não, não assisti ao Camille Claudel, 1915, de 2013, com Juliette Binoche, cujo foco é justamente o momento da internação da artista. Aff! Não, não, não vou assistir. Por causa disso tudo, quando fui a Paris pela primeira vez, em 2000, não consegui… Tinha tanta coisa pra ver que foi até fácil não colocar o Musée Rodin na lista. Também não fui aqui em São Paulo quando houve a exposição na Pinacoteca em 2001 – um recorde: 200 mil visitantes! o primeiro na história das exposições paulistas! antes mesmo das selfies! aliás, tinha uma puta fila! Mas, dessa vez, 15 dias (!) em Paris, não tinha como não visitar um dos museus mais cotados – e agradáveis! – da cidade. (Saramago dizia que não se pode separar o autor de sua obra, mas até que ponto não se deve distanciá-los?)

O museu está instalado desde 1919 no lindo Hôtel Biron, que Rodin usou desde 1908 como oficina. O escultor doou, após a sua morte, em 1917, cerca de 300 de suas obras, mais os Van Goghs e Renoirs que possuía, ao governo francês, com a condição de que o prédio fosse transformado em museu. Conta ainda com um belíssimo jardim,  em cujo lago estão Ugolino e seus filhos, cuja história está narrada no Canto XXXIIII do Inferno da Divina Comédia (1321) de Dante Alighieri. O Conde Ugolino della Gherardesca de Pisa, acusado pelo arcebispo Ruggieri degli Ubaldini de ter traído a sua cidade natal, é preso com seus 2 filhos e seus 2 netos numa torre cuja chave é jogada fora. O conde vê seus filhos e netos caírem um a um, e Dante sugere um final canibalístico. A cena faz parte da Porta do Inferno, considerado o trabalho mais original de Rodin, partindo de temas mitológicos e alegóricos. O artista, com sua experimentação conceitual e estilística, era odiado pelos críticos e adorado pelos vanguardistas da época, os impressionistas. Uma das esculturas que melhor se insere nessa dicotomia é o Monumento a Balzac que vc já vê na estação de metrô próxima do museu. A obra foi encomendada pela Société des Gens des Lettres, mas foi rejeitada, após ser exposta no Salão de Belas Artes de Paris de 1898. Dá uma olhada lá, vê se vc recusaria, é… diferente.

Ugolino e seus filhos

Sim, as obras de Camille estão lá também. E são um show!

P.S. não vou nem contar que o Abelha esqueceu de devolver o audioguia que disparou loucamente ao entrarmos na lojinha do museu (adoro essas lojinhas!) e… ele não percebeu! O audioguia pendurado no pescoço dele e soando como uma ambulância e ele não desconfiou que aquele zunido vinha dele! Ele quase foi arrastado para fora da loja!