2 de julho de 2015

Lhamas com mal de altitude (?!)

Num desespero por “visitar aquele lugar imediatamente” (só os compulsivos por viagem vão entender do que eu estou falando), fechei um pacote de cinco (sim, eu disse “apenas” e “míseros” 5) dias para Machu Picchu. É claro que um pacote de 5 dias para Machu Picchu não significam 5 dias em Machu Picchu, significam uma noite em Lima, duas em Cusco e uma (umiiiiinha) noite em Machu Picchu. Mas o que vale é a determinação (ou o desespero) do momento! E se o mundo acabar? E se eu morrer? E se, na próximo chuva, Machu Picchu se inundar e for destruída? Não, não! Não posso correr este risco! Leitura daqui, leitura de lá, preparação daqui, preparação de lá e lá fomos nós.

Lima

O primeiro empecilho foi acordar às três horas da manhã, para chegar ao aeroporto às quatro, para pegar o avião às seis! Noite virada, né? Como dá pra controlar a ansiedade e dormir até as três? Chegamos a Lima que, costumeiramente, fica coberta por uma névoa cinza e úmida, e fui tirar um cochilo. É claro que a camareira me acordou não uma, mas duas vezes, para fazer sei lá o que no quarto. Se estivesse pegando fogo e ela quisesse me avisar, eu ia ficar lá mesmo, porque ela hablava não sei o que lá fora, ao que eu respondia no, gracias! Mas esta noite seria longa, não acordaria às três, mas às quatro! Ou melhor, o hotel deveria nos acordar às quatro, mas esqueceram… Como eu não estava nem um pouco ansiosa para chegar a Machu Picchu, acordei sozinha pouco antes das 5, horário que a van nos levaria ao aeroporto para pegar o voo para Cusco, e quase matei a recepcionista do hotel!

Cusco

Na verdade, eu queria ter ido direto para Cusco de São Paulo, já que meu objetivo era Machu Picchu, mas entrei no “golpe” da agência que me disse ser melhor, para me aclimatar, ficar um dia em Lima… Claaaaro, melhor ir de São Paulo para Lima (nível do mar, certo?) do que ir direto de SP para Cusco (3.400m!!!) e perder um dia de aclimatação em Cusco. Porque a aclimatação não deve ser em Lima, mas em Cusco!!! Desci do avião e … nada, fomos de van até o hotel e … nada, o ar entrava plenamente pelos meus pulmões e parecia tudo certo. Comecei a tomar chá de coca no hotel profilaticamente… Mas, devagarzinho, devagarzinho… o ar foi ficando pesado, entrava de forma insuficiente pelo meu nariz, me sentia cansada, minha cabeça pesava, mais e mais, um enjoo, uma náusea, uma tontura, uma sensação de slow motion se apoderou de meus gestos e de tudo a minha volta… Era o tal do soroche. Me entupi de chá de coca, além de água, saladinha de almoço, sorojchi pills (vendidas na farmácia), suplemento extra de oxigênio no quarto de hotel… Nada! Se os jogadores de futebol precisam se aclimatar antes de jogar em altitude, por que eu não precisaria? Aliás, não tem nada a ver uma coisa com outra, o preparo físico não elimina a necessidade de aclimatação, só o tempo resolve… fui dormir cedo.

No dia seguinte, outra maratona: van, trem para Águas Calientes, ônibus para Machu Picchu, caminhada nas ruínas… E, de repente, as lhamas! Sim, elas vão chegando sorrateiramente e, de um átimo, estão ruminando tranquilamente na sua orelha, como se quisessem se apresentar e participar da conversa. Elas se mostram bem à vontade com os turistas, posam para as fotos, caminham com tranquilidade, os filhotinhos mamam nas mamães… Elas parecem que sempre estiveram lá, pacíficas e passivas. Mas não! Elas foram introduzidas para deleite dos turistas, e os dois primeiros casais que foram para lá, morreram, não se aclimataram! Claro, o mal de altitude! Pode matar qualquer um! Não, não era nada disso, este era o meu delírio fruto do soroche. Foi o calor. Elas estavam acostumadas a altitudes ainda maiores, mas não ao calor. (Ou melhor, eles, pois lhama, que vem da palavra quechua llama, é um substantivo masculino, quer dizer, é comum de dois, se diz a lhama para a fêmea e o lhama para o macho, mas genericamente usa-se o masculino). Meu, que louco! Pensa que colocaram os lhamas em Machu Picchu só para apreciação dos turistas, é fake (pelo menos, foi isso que a guia nos contou…)

Mas atenção, apesar da aparência dócil e as poses para fotos, os lhamas são o oitavo animal mais irritável do mundo, segundo o Animal Planet, e podem cuspir uma baba espessa e mal cheirosa no objeto da irritação (que pode ser outro lhama ou não). Além de serem bem teimosos: se colocada uma carga maior que a suportável, deitam-se, cruzam os braços e lá ficam até terem seu peso aliviado (ao que fazem muitíssimo bem). É da família dos camelídeos, como os guanacos, as vicunhas e as alpacas, e hoje não existem mais lhamas selvagens, apenas domesticados para produção de lã, carne, couro, ornamentação (a vertente mais promissora atualmente) e até para companhia, caso da raça lhoodle cujo comportamento se assemelha ao dos cães da raça poodle.

E Machu Picchu? É tudo aquilo que dizem? É muito mais…