25 de novembro de 2016

Miche, Miche, Miche

Durante meu curso de italiano antes da minha viagem à Itália foi oferecido pela escola um curso sobre Michelangelo pra quem tinha concluído os três primeiros níveis. Bom, eu estava no terceiro estágio, mas resolvi arriscar e foi… difícil! O professor falava em italiano, claro, sem parar, acompanhado por slides numa sala à meia luz; manter o foco e não dar uma cochilada ao som daquele mantra foi a tarefa mais árdua. Mas foi espetacular e me apaixonei por Michelangelo – coisa parecida aconteceu quando eu fiz o Curso de História da Arte no MASP e me apaixonei por Picasso, sou meio volúvel mesmo… Não dava pra me apaixonar por Michelangelo, viajar à Itália e não ir para Roma. Então, fora de toda a programação e com as passagens compradas – ida a Napolis e volta de Milão – resolvi mudar todos os planos e passar uma semana sozinha em Roma. Despachei meu marido de Milão para o Brasil, peguei o trem rapidão para Roma, fiquei uma semana, peguei o trem rapidão de novo até o aeroporto de Milão e de lá para o Brasil. E em Roma fui, dia após dia, conhecendo as obras do grande mestre do Renascimento.

Pra quem acha que só vai encontrar Miche na Capela Sistina, tá redondamente enganado, Ele está em todos os lugares. Comecei pelo menos conhecido, a Piazza del Campidoglio, a praça das praças! Michelangelo a recriou em 1536, sob encomenda do papa Paulo III Farnese para a visita do imperador Carlos V. Também renovou as fachadas dos palácios e construiu a Cordonata, uma nova escadaria com suave inclinação. Só um gênio como Michelangelo poderia fazer uma coisa tão estupenda com tão pouco espaço e com tantas particularidades. Entre por um lado, saia por outro, suba a escada, desça-a….perceba os detalhes, as estátuas, os degraus…

Piazza Capidoglio

Depois, numa igreja quase esquecida, Santa Maria Sopra Minerva, uma das raras construções góticas de Roma, erguida sobre o que se acreditava serem as ruínas do Templo de Minerva, fui ver o Cristo ressureto/ressuscitado, iniciado por Michelangelo e concluído por um de seus discípulos (talvez isso explique o pouco interesse pela obra). Relevante notar que hoje Jesus tem um manto cobrindo suas partes íntimas, diferentemente da concepção original. É muito belo, como tudo de Michelangelo. Vale a pena também pela tranquilidade do local.

Cristo Ressureto - Michelangelo

Em outra tranquila igreja, San Pietro in Vicoli (São Pedro nas correntes) que abriga as supostas correntes que prenderam São Pedro, fui encontrar Moisés, que deveria fazer parte, junto com os Escravos agonizantes, do túmulo do papa Júlio II, mas que nunca foi concluído. A igreja, que não cobra ingresso, fecha por umas duas horas no período do almoço, então preste atenção ao horário antes de ir, porque fica no alto de uma colina e a caminhada é puxada! (Claro, que eu nem liguei e dei com a cara na porta!) A igreja é super simples do lado de fora, vc não dá nada por ela. Mas é linda! O Moisés manco é um espetáculo à parte – diz-se que Michelangelo, após terminar a obra, decidiu virar o rosto de Moisés para que ficasse de olho no local onde eram recebidos os dízimos, assim, para virar um pouco o corpo ficou faltando mármore para uma perna, então ficou sem perna mesmo, só com um puxadinho do manto – pague 1 euro para iluminá-lo – quantas vezes vc fará isso? É uma visita e tanto.

Partindo agora para uma igreja bem mais vistosa e visitada, rumei para a Basílica de São Pedro. Pena que um maluco há alguns anos arrancou o nariz da Pietá a marteladas e agora ela está exposta numa vitrine, o que atrapalha um pouco a apreciação por causa do reflexo. É um primor, o olhar da mãe de Cristo….é emocionante! Repare na proporção (ou na falta dela), aquela mãe é gigante! e jovem! (assim como Dante a descreveu em A Divina Comédia “Ó Virgem madre, filha do teu filho, / humilde e alta mais que criatura, / termo fixo de um só conselho eterno,).

Pietá - Michelangelo

E, por último, a rodela de limão do Spritz (cereja do bolo não daria muito certo porque eu não gosto): a Capela Sistina. Que nervoso aqueles guardinhas gritando: Avante! Avante! Pô, dá um tempo, vc não sabe como foi difícil chegar até aqui! Fui e voltei 20 vezes, sentei para descansar, analisei “detalhadamente” cada cena… Que lindo, lindo, lindo! Uma curiosidade é que muitas figuras dO juízo final, que considero a parte mais espetacular por seus detalhes, tiveram suas partes íntimas cobertas por roupas (posteriormente, por outros artistas), pois a Igreja não aceitou a nudez das figuras. Estava lendo a recente biografia de Michelangelo e foi super triste e surpreendente saber que Michelangelo sofreu muito ao pintar aquelas paredes durante anos, pois não considerava a pintura seu ofício, e sim a escultura. Fazia simplesmente por dinheiro e mérito, pois tinha uma obsessão em ocupar um lugar de prestígio na sociedade que acreditava que sua família já tinha estado. A beleza parece ser ainda mais exuberante! As figuras parecem que a qualquer momento vão criar vida e sair das paredes.

Não havia melhor chave de ouro!