8 de agosto de 2015

O chantilly dos chantillys (ou o chantilly do Chantilly)

Esqueça! Esqueça completamente! Tire da sua cabeça aquela imagem horrenda do Ronaldo casando com a Cicarelli no Château Chantilly. Não! aquele castelo magnífico não combina em nada com aquele episódio aterrorizante. Ele deve (e merece) ser apreciado sem qualquer contato com esse fato horripilante. Conseguiu esquecer? Não?!… Isso me faz lembrar um episódio no Vigilantes do Peso em que discutíamos sobre a dificuldade de parar de pensar em coisas gostosas para comer, e, então, nos foi proposto um desafio: ficar um minuto sem pensar numa girafa … enquanto uma pessoa ficava falando sem para (em todos os tons possíveis!) a palavra girafa! Moral da história: eu sei que eu não devia ter falado sobre o tal acontecimento, mas eu sabia que vc ia pensar nele, e vc tinha que não pensar! Despensa, ok? Então, falamos de chantilly…hhhuuuummm!!!!

Château Chantilly

O creme chantilly chama assim por causa do castelo ou o castelo chama assim por causa do creme? Hum… Vamos voltar no tempo. Em 1631, nascia, em Paris, Fritz-Karl Watel, filho de uma família humilde original de Zurique. Aprendeu a cozinhar daqui, a gerenciar de lá, a administrar de acolá, e, em 1961, tornava-se o maître d´hotel do Château de Vaux-le-Vicomte. Naquela época, o cozinheiro reinava absoluto (Absolutismo, sacou?) e os assentos às melhores mesas eram disputados a tapas pelos nobres, assim como os próprios chefs. Em agosto daquele ano, Watel teve como incumbência uma festa para 600 convidados da corte francesa (dentre eles, a rainha mãe, Ana de Áustria, e o soberano Luís XIV, o Rei-Sol). Seus banquetes eram verdadeiros espetáculos, com encenação de peças de teatro – como Molière –  show de fogos de artifício e esculturas de gelo gigantes. Naquela noite, criou para sobremesa um creme de nata batida, doce e perfumado com baunilha. Parece que Watel e suas qualidades culinárias passaram despercebidos pelo Rei. Em 1663, Watel foi trabalhar no Château Chantilly para o Grande Condé e batizou o seu creme com o nome do lugar. E foi nesse mesmo lugar que Watel teve nova oportunidade de mostrar seus dotes para o Rei-Sol. Em 21/04/1671, Watel foi encarregado de promover 3 dias e 3 noites de festividades em Chanilly para a nobreza. Para o jantar da última noite, a Sexta-Feira Santa, o maître teve que fazer pedidos adicionais de peixes e frutos do mar, já que o número de pessoas (3.000) foi superior ao esperado. Em virtude do atraso na entrega dos pescados, temendo ser sua ruína, Watel, munido de um punhal (e não de uma peixeira) suicidou-se!

E o chantilly? Hummmm!!! Vc pode provar este célebre creme (não só provar, vc pode é comer muito mesmo) no Restaurante Le Capitainerie, no Château, que, aliás, vai muito além do chantilly. Domaine de Chantilly divide-se em Château, Parque e Grandes Cavalariças. O Château é um dos mais bonitos da França, pois é um dos poucos mobiliados, diferentemente da maioria dos castelos do Vale do Loire que são peladinhos. Destruído durante a Revolução Francesa, Chantilly foi reconstruído na década de 1870 para o último filho do Rei Luís Filipe I, Henrique de Orleães, o Duque d’ Aumale, que instalou sua coleção de quadros e livros no Château. Vc pode visitar as galerias – a coleção de pinturas antigas do Musée Condé só fica atrás da do Louvre) – os apartamentos – decorados!- e a Biblioteca (linda!!!!Sonho de consumo, não fossem as alergias…), que abriga cerca de 500 manuscritos e 12.000 volumes. Como o duque não teve descendentes, doou ao Instituto da França em 1886.

Château Chantilly

Mas não para por aí, não. Ainda tem um parque de 115 ha (divididos em Grand parterre Le Nôtre – de André Le Nôtre, antes de fazer os Jardins de Versailles – Jardin anglo-chinois e Jardin anglais). Como estava frio e chovendo quando fomos, não conseguimos visitar essa parte, nos contentamos só com o interior … E tem também as Grandes Cavalariças – as maiores da Europa – construídas entre 1719 e 1740, são consideradas uma obra-prima do arquiteto Jean Aubert e ainda abrigam o Musée vivant du cheval. Tínhamos comprado o ingresso para o espetáculo dos cavalos, mas como estava frio e chovendo, e não tínhamos tempo para tudo, ficamos só nos aposentos internos … Aliás, perdemos o último ônibus do Castelo à estação Chantilly-Gouvieux para voltar a Paris. Ah, também não tinha táxi não. Até fomos ao Hotel e pedimos para chamar um táxi…não, não tinha mesmo… Ah tá, vamos a pé, 2 km, na chuva, no frio… Ah, e o Abelha perdeu os óculos! Fomos atrás deles. No hotel onde fomos pedir o táxi? Não, não estava lá. Na rua? Sim, ele achou caído na rua! Ele os deixou cair quando estava correndo atrás de um ônibus. Não, não sei se servia. Menos mal, não precisamos ir atrás de um oftalmo porque o Abelha ficou cego como da outra vez tivemos que ir atrás de um dentista porque ele ficou banguela.

O relato de Watel chegou até nós através de uma carta que a Marquesa de Sévigné, a nobre escritora francesa do gênero epistolar Maria de Rabutin-Chantal, escreveu a sua filha e que “afrancesou” o nome de Fritz-Karl Watel para François Vatel após sua morte. Ah! E o peixe chegou a tempo, 45 minutos depois… Mas, em respeito ao cozinheiro morto, não foi servido. (Para entender um pouco mais, assista a “Vatel, um banquete com o Rei” com Gérard Depardieu)

Château Chantilly