9 de junho de 2015

O que me representa?

Ultimamente, tenho me sentido desconfortável ao preencher alguns cadastros. Claro que eles não são novidade na minha vida, muito pelo contrário. Talvez, e justamente pelo fato deles não serem tão numerosos como outrora, hoje me deparo com questões inusitadas, difíceis mesmo de responder, algumas, inclusive, reflexões filosóficas insolúveis! No último, tive que dizer qual era minha religião. Fiquei tensa. Era a ficha de internação para uma cirurgia. Era um hospital religioso? Seria melhor atendida se fosse católica? Ou eles estavam preocupados com uma possível extrema-unção? Será que as beatas viriam rezar no meu leito? Na dúvida, achei melhor dizer que não tenho. Não podia ser punida por não ter algo… ou podia?

Religion_distribution

Quando jovem, preenchia muitas fichas em busca de trabalho, para inscrição de cursos e outras, tornando o ritual mais automático. O que era mais difícil naquela época era me lembrar de alguns nºs (como o do “CIC”, por exemplo, já que não precisávamos saber de cor para a NF paulista) ou saber se eram os primeiros ou os últimos quadradinhos que deviam ficar em branco, e quantos. Eram questões mais “técnicas”, eu diria. Não se titubeava no nome, estado civil ou profissão. O nome era repetido copiosamente desde a alfabetização, e até soletrá-lo já tinha um certo padrão. (Aliás, descobri que existe um padrão “universal” para se soletrar na Itália, cada letra é a inicial de uma cidade, sempre a mesma, todos sabem qual é, hilário…rsrsrs….adorei!). O “xizinho” no solteiro era automático. A profissão era um cargo pretendido (recepcionista, vendedora etc), já que o mais importante era o que se estava estudando.

Quando esse processo chegou ao fim, precisei fazer uma opção. Bom, no começo não foi TÃO difícil. Eu estudava Letras e trabalhava como plantonista num cursinho pré-vestibular. Bacharel em Letras Português/Alemão não dava, plantonista gerava comentários estranhos, apesar de ser este meu registro, então, assumi “professora”. Quando saí desse emprego (depois de 10 anos!), continuei ainda um tempo sendo “professora”. E aí começaram as primeiras questões… O que me fazia professora? minha formação ou minha atuação? Depois de algum tempo, dando aulas só particulares, revisando textos esporadicamente, fazendo pães e bolos, bonecas de pano e patchwork, fui me incomodando mesmo com o “x” no professora. Isso não me representava. Quando passei no concurso do TJ, achei que o obstáculo tinha sido superado. Que nada! Eu era servidora pública, funcionária do Judiciário ou escrevente? E quem sabia o que era isso? Quando compartilhei com outra pessoa do funcionalismo público a minha questão, esta me respondeu com empáfia: “Funcionária Pública com muito orgulho”. Ai, ai ai, não entendeu nada… Quando saí do Tribunal, aí piorou! Dava pra voltar a ser professora? Dona de casa? Sem filhos? Faz o quê? O jantar pro marido? E quando comecei o blog, virei blogueira na hora? Quando o blog passa a existir? quando vc o “coloca no ar” ou quando recebe alguma compensação financeira por isso? Estou com problemas no quesito “profissão”…

profissões

Mas se fosse só esta questão, tava fácil. Aí vem o nome! Antes, o difícil era só o sobrenome, ou melhor, os sobrenomes. Hoje em dia, até o nome é problemático: “É Tania normal?” Oi? Como assim? Esse assunto pode ser melhor discutido com a minha psiquiatra…mas se vc quiser…”É com H, Y ou é normal?” Ah, é normal. Depois vêm os sobrenomes, que vira até uma questão de identidade. Quando vc tem dois, e precisa abreviar o sofrimento, escolhe um. Mas qual? O da mãe? o do pai? o mais fácil? Fácil pra quem? O último. Primeiro, último, pronto. Pronto nada. No cursinho, para não haver confusão com outra Tania, virei TaniaR. Claro, pegaram a inicial do sobrenome do meio. Tudo por água abaixo… Tinha que ser o primeiro, a inicial do segundo (que eu tinha que dizer de onde vinha, porque todo mundo achava que era R de Regina…) e o último, ufa! No Tribunal, era a inicial do nome mais o segundo sobrenome, é padrão. Furou de novo! E aí, todo mundo conhecia um Ruppert, o ursinho do desenho, aquele daquele episódio do Mr. Bean e por aí ía… E eu soletrando, soletrando…

Já não tava bom? Que nada! Casei. Colocar ou não o nome do marido? Abelhão? Uma professora de adolescentes chamada Abelhão, desgraça total! Não. Além do mais, e aquele lance de identidade? 30 anos falando e assinando o mesmo nome… Pior foi quando eu fui buscar meu passaporte e estava sem a minha certidão de casamento para provar que meu nome era aquele mesmo, que NÃO tinha mudado. Tive que assinar um documento assumindo todos os riscos de NÃO ter apresentado a certidão que provava que eu NÃO tinha mudado meu nome (duas negações não dão uma afirmação?!…deixa pra lá). Então, esse não é apenas o meu nome, é o meu nome, que é o mesmo, mesmo depois do casamento.

nome de casada

Então tá,  eu tenho meu nome, meu marido tem o dele, pronto. Nãnãninãnão. Quando vc viaja, muda de personalidade, dependendo, claro, do lugar para onde se vai. Se for um país latino-americano, com uma cultura mais (mais?) machista, vai ter que incorporar o sobrenome do marido, mesmo VOCÊ fazendo TODAS as reservas em SEU NOME. Bom, nem “te ligo” ser chamada, no Peru, de sra. Madeira (sobrenome do meio do meu marido, escolhido porque eles não conseguem pronunciar o “ão” de Abelhão). Nem respondo, não sou eu mesmo… não tô nem aí, vai falando… Em Foz, como eu havia feito todas as reservas (como sempre) em meu nome, ele virou o sr. Mengas (claro, ninguém conseguia pronunciar Meingast). Ele se divertiu… Eu não! Eles acharam que aquele era o nosso sobrenome, ou seja, o dele, gentilmente cedido para mim, não o MEU! Em Paris, cada um tinha seu nome. Questão de individualidade! Não que na Europa não ocorram situações bizarras, só são de outra natureza… Na França, saquei meu Ruppert da manga com a maior naturalidade. Aqui, vai ser moleza (Isabelle Huppert, sacou?). Não deu certo, é com H, ninguém entendeu nosso “parentesco”… Fracasso total! Minha pronúncia… (é… aquele curso básico que faz parecer que os franceses falam outra língua…). Na Alemanha, tô tranquila – Meingast! Realmente, tudo certo. Pronúncia perfeita, compreensão idem. Só não contava com o que viria depois… uma conversa fluente em alemão! Fluente, eu disse isso? “Não, eu não falo bem alemão. Na verdade, meu pai não é alemão, ele já nasceu no Brasil. Sim, o sobrenome é alemão. São meus avós, que, na verdade, também não eram alemães, eram yugoslavos e romenos. Sim, eles falavam alemão, na verdade não o Hochdeutsch, mas um dialeto. Não, nós (a minha geração) não aprendemos em casa. Sabe, a guerra… Eu na verdade estudei alemão na faculdade, mas há muito tempo. Sim, 20 anos, já nem me lembro mais.” Sim, meu cão é um weimaraner, de Weimar na Alemanha, mas ele nasceu aqui e (lembra?) ele não fala, né? Ai, que preguiça…