9 de junho de 2016

Olhar, cheirar, provar… Ver, fungar, beber…. Beber, beber, beber

Aí a pessoa vai pra Itália e TEM que conhecer os vinhedos da Toscana. Como é que o ser humano me cruza o oceano naquela cápsula insalubre que vc não faz a menor ideia de como se mantém lá em cima sem cair e não vai visitar as tão faladas vinícolas? Assisti a todos aqueles filmes que narram as maravilhas da vida do mundo de parreirais, uvas, barris e taças de vinho, como Mondovino (documentário que fala da globalização do vinho da Califórnia e da Borgonha), ou Sideways (que transformou o Pinot Noir num dos vinhos mais vendidos nos EUA), ou Um ano bom (que leva um acionista londrino ao château onde passou a infância), ou o romântico Caminhando nas nuvens, e não vai em loco ver essas belezas?

Montepulciano

Como boa viajandora, vc já visitou as vinícolas da Argentina, ou as do Chile, ou as do Vale dos Vinhedos, ou pelo menos as de São Roque, ou as de qualquer outro lugar, e percebeu que as visitas são parecidas, quer dizer, iguais, na verdade, IDÊNTICAS. Vc chega lá, o guia te fala do solo, do clima, da altitude, da uva que melhor se adapta ao local, te leva para conhecer as plantações (dificilmente vc irá na época da vindima ou quando as vinhas estão com uvas – é a lei de Murphy… sempre presente). Depois vc conhece as adegas, onde são armazenados os vinhos em tonéis de inox ou barris de carvalho – americanos ou franceses, depende do tipo de vinho, etc, etc. Depois, e ainda não por último, a degustação: põe lá na taça X o vinho Y, olha a cor num fundo branco – usa o guardanapo – depois chacoalha para “liberar os aromas”, vê as “lágrimas” que escorrem pela taça, põe o narigão lá dentro do copo (mas tapa tudo pra não deixar sair cheiro nenhum – vai que tem um tal “perfume” de pelo de rato molhado pela chuva outonal que vc deixou escapar e aí toda a sua análise vai por água abaixo). Finalmente, é a hora de beber, mas não é simplesmente por um gole dentro da boca e engolir, nãnãninãnão, vc tem que dar uma golada, dar uma sugada – com barulhão mesmo – bochecha para que o sabor percorra todas as partes de sua cavidade bucal e engole, e, aí sim, no próximo gole, vc pode, finalmente, beber “normalmente”. Lógico, de tempos em tempos, tem que dar aquela chacoalhada na taça, aquela fungada, aquela sugada… E, agora sim, por último, a lojinha, que vai te dar o maior trabalhão, porque não é só escolher, comprar e pagar aqueles euros absurdos, tem que trazer também… E isso inclui embalar, por na mala (se couber), torcer para não dar excesso de bagagem, e rezar – e muito – para a garrafa não estourar e manchar as suas roupas (tem umas sacolinhas que lacram, prometendo proteção total! mas vai saber…)

Mas cada viagem é uma viagem, e mesmo que as visitas se pareçam TANTO, cada tour tem suas peculiaridades encantadoras, que vão muito além dos vinhos. Na região de Chianti, do famoso galinho, fomos a Fattoria San Michele a Torri, administrada por uma brasileira. Como contratamos uma guia brasileira, acho que, por serem compatriotas, ela aceitou nos atender nesse dia, porque era uma época meio de férias deles – entre Natal e Ano Novo – e quase todas as adegas da região estavam fechadas para visitação, e também não tinha muito o que ver lá não). Mas, além de produzir vinhos, ela também faz azeites deliciosos que são guardados – rapidamente, pois, diferentemente dos vinhos, devem ser consumidos o quanto antes – em lindas ânforas (será que é assim que se chamam?) e foram a estrela da nossa degustação – e das compras também. Ainda na mesma região, fomos ao Castello di Brolio Ricasoli (aí sim, um grande lugar para conhecer), onde surgiu, em 1872, o vinho Chianti, criado pelo barão Bettino Ricasoli (há controvérsias, sempre há…). Além de conhecer parte do castelo num tour guiado e ouvir algumas histórias seculares, pudemos almoçar no elegante restaurante da propriedade – comi de entrada um delicadíssimo mousse de abóbora com pecorino que me levou às alturas – tudo bem, a região já é bem alta mesmo….rsrsrs.

ânfora para azeite

Montalcino, outra cidade toscana, é rodeada pelos vinhedos produtores do famosérrimo Brunello, um dos melhores vinhos tintos da Itália, cujo tanino pode demorar até 10 anos para revelar integralmente seu sabor. Lá, conhecemos a Abadia Ardenga. Uma propriedade antiquíssima, onde podem ser vistos objetos de época, mostrados pelo Sr. Mário (nascido lá, descendente da família que cuidava da propriedade, que acabou herdando-a). Com uma enorme simpatia e bom humor – às vezes, um pouco exagerado – o octogenário italiano nos enche de histórias pitorescas e gracinhas. Ao lado, situa-se a cidade de Montepulciano, uma das aldeias mais elevadas da região, que produz o vinho Nobile, com a mesma uva sangiovese, que serve de base para os principais vinhos tintos produzidos na região. A cidade é uma gracinha, com ladeiras e ruinhas muito graciosas. Visitamos a Cantina Ercolani no centro da cidade que possui uma passagem subterrânea utilizada na Segunda Guerra – impressionante!

Abadia Ardenga

Mas interessantíssima mesma é a lenda do Gallo Nero. No século XII, Florença e Siena disputavam suas fronteiras. Para resolver a contenda, criaram uma disputa: um cavaleiro partiria de cada cidade ao cantar do galo e a fronteira seria definida quando eles se encontrassem. Na véspera da disputa, Siena escolheu um galo branco e o alimentou muito bem, enquanto Florença escolheu um negro e não o alimentou. Os cavaleiros partiriam cada um da entrada de sua cidade. O de Florença começou o galope no momento que o galo preto cantou, o que aconteceu logo cedo porque estava morrendo de fome, enquanto o cavaleiro de Siena teve que esperar muito até que o galo branco resolvesse acordar e cantar, pois estava empanturrado. Os dois cavaleiros se encontraram apenas 12km dos muros de Siena, e, assim, Florença conquistou uma grande parte da região de Chianti, hoje responsável pela produção dos famosos vinhos Chianti, que recebem o selo do Gallo Nero, que são fabricados seguindo regras bastantes rígidas.

 Independente de olhar, chacoalhar, cheirar, bochechar ou não, o importante é enxergar o entorno da visita, bebendo ou não.