7 de fevereiro de 2020

Os reis do fim do mundo: os castores

Nossa viagem à Patagônia argentina consistia em conhecer El Calafate (visitar o impressionante Glaciar Perito Moreno) e Ushuaia, a cidade mais austral da América do Sul. De Buenos Aires pegamos um voo para El Calafate, onde ficamos 3 dias, e de lá outro voo para Ushuaia, onde permanecemos mais 3. No trecho para Ushuaia, que era bastante curto, sentei na janela e pude apreciar a paisagem enquanto ia me aproximando da cidade, e algo me chamou muito a atenção: áreas com muitas árvores derrubadas próximas às margens dos rios. Imaginei que fossem áreas desmatadas por madeireiros ou coisa que o valha, e qual não foi a surpresa ao ser informada por um guia num dos passeios que fizemos em Ushuaia que aquilo era produto de castores!!!

Castores são o segundo maior roedor do mundo, perdendo em tamanho apenas para as capivaras. São animais originários do Canadá e da Europa, ou seja, do hemisfério norte. Então como eles foram parar na cidade do fim do mundo? Levados pelo animal que se julga o mais inteligente de todos, o homem. Foi introduzido na década de 50 no governo de Perón, juntamente com as lebres, para o desenvolvimento da indústria “peletera”, isso mesmo, de peles. É claro que deu tudo errado. Ambos os animais – lebres e castores, não o homem, veja bem – se adaptaram às novas condições climáticas, e houve uma diminuição da espessura de sua pele. Assim, o produto acabou não tendo a qualidade esperada, o que se refletiu no baixo preço, fazendo com que os caçadores abandonassem a atividade, e os castores se espalhassem pela região.

Sem os predadores naturais do Canadá, os ursos (então…não há ursos na Terra do Fogo), os castores procriaram como coelhos – não, não, as lebres estão sob controle. Dos 25 casais originais vindos do Canadá, estima-se que hoje a população de castores gire em torno dos 100 mil indivíduos. Alimentando-se de árvores e derrubando-as – com seus incisivos que nunca param de crescer –  para a construção de diques, são mais destruidores do que muito madeireiro por aí. Acredita-se que tenham destruído cerca de 300 quilômetros quadrados na região patagônica! O que acontece é que as árvores canadenses voltam a brotar rapidamente e estas não. Tudo isso gera um sentimento super negativo em relação aos animais. Todos ODEIAM os castores e listam de cor todos os malefícios que trouxeram para a região, considerando-os uma praga.

Mas eu virei super fã desses animaizinhos super inteligentes e trabalhadores. Os castores, que são monogâmicos, acasalam-se apenas 1 vez por ano, e a fêmea tem de 2 a 4 crias por vez. Ambos os pais contribuem para a criação dos filhotes, que vivem até os 2 anos com a família – tendo aulas de engenharia, álgebra, sobrevivência, essas coisas. Com os troncos das árvores constroem diques para criarem represas, onde fazem as suas tocas, que podem ter 2 andares e cuja entrada fica submersa na água para que nunca fique obstruída, como em caso de congelamento da represa por exemplo. Passam o verão e a primavera coletando alimentos – são vegetarianos – que são guardados para o inverno, e fazem reparos constantes nos diques que podem aumentar de tamanho. São animais essencialmente aquáticos, conseguindo ficar submersos por até 20 minutos quando surge algum perigo, além de enviarem vibrações com a cauda pela água para avisarem os outros de algum risco iminente.

É claro que não sou estúpida a ponto de não enxergar o problema causado no meio ambiente, mas é muito triste ver que um imbecil leva animais para serem um meio de sobrevivência numa terra inóspita, e quem leva a culpa é o pobre do bichinho. Se os homens se espelhassem na inteligência do castor, talvez não estivéssemos numa crise ambiental tão grande, até porque sabemos que a Terra vai se regenerar como já o fez, mas a espécie humana…