4 de Abril de 2016

“Parla!”

Firenze poderia facilmente se chamar Michelangelandia, a terra de Michelangelo. É só pisar na cidade pra dar de cara com o imenso David na frente do Palazzo Vecchio. (Imagine passar o Réveillon ao som de música clássica aos pés do herói que atacou Golias? Pois é, foi assim o meu Capodanno…) Suas mãos enormes, sua cabeçorra infantil, suas partes íntimas (bem diminutas, aliás. Para os gregos – fonte na qual Michelangelo bebeu – era considerado antiestético fazer pintões; eles eram bem mais resolvidos do que nós), suas veias, seus tendões…tudo parece realmente pulsar, ter vida. Não à toa ficou célebre a lenda de que o artista ao ver sua obra pronta lhe mandou um “Parla!”. Romântico demais, estamos em 1504, no Renascimento, e o Homem é a medida de todas as coisas, não existe nada de divino por aqui!

David

Michelangelo, ainda com 26 anos, trabalhou arduamente, sozinho, e às escondidas – era meio paranoico – na estátua do meninão, por quase 2 anos, depois de disputar com da Vinci um enorme bloco de mármore. É, isso mesmo, apesar das estátuas de mármore serem abundantes na época, não era tão fácil assim conseguir uma boa matéria prima. Miche ía pessoalmente às pedreiras, como a de Carrara, escolher a peça que lhe interessava e mandá-la para Firenze. Imagina o trampo que era transportar a pedrinha! Então, quando aparecia por lá uma pedrona, lindona, perfeitona, tinha briga sim.

E David não nasceu assim do nada, por inspiração, foi uma encomenda, disputada também. E o local onde ela ficaria depois de pronta foi debatido arduamente, por pessoas influentes da sociedade, entre elas da Vinci – olha ele aí de novo – e Boticcelli. Mas não se engane ao ver esse monumento na Piazza della Signoria, é uma réplica. Sim, inicialmente era a original, mas depois de tomar umas pedradas, ser atingida por um raio e levar uma martelada no dedão, fizeram por bem – ainda bem – a transferência para a Galleria dell’Accademia em 1873.

Vá lá, não deixe de ver o original. O pedestal, a iluminação, a perfeição, os detalhes, todos os ângulos pelos quais vc pode admirá-la valem muuuuiiiitttooooo à pena. Além de David, vc pode ver também a série de escravos de Michelangelo, os Quattro Prigioni, 1521 – 1523, esculpidos para adornar o túmulo do papa Júlio II, que são de uma intensidade impressionante! As figuras que parecem lutar para se livrar da pedra estão lá no corredor que dá acesso a David. Ninguém dá bola pra eles, aproveite e encante-se!

Galleria dell´Accademia - Davi de Michelangelo

Mas não é só o David que se destaca em Firenze não. O Bargello – que é o segundo museu mais importante de Firenze, superado apenas pela Ufizzi, e uma das mais belas coleções de esculturas renascentistas da Itália – tem três exuberantes obras de Michelangelo – o embriagado Baco (1497), o imponente Brutus (1539/40) e um delicadíssimo relevo circular Madona e Menino (1503/4). Na Galleria Uffizi, A Sagrada Família, uma pintura de cores fortes – à moda maneirista – apresenta pela primeira vez o menino fora do colo da virgem, que servirá de inspiração para vários artistas.

Para se despedir em grande estilo, que tal a Piazzale Michelangelo? (Não é porque acabaram as obras, nãnãninãnão). A praça por si só não encanta tanto. Depois de ver as obras originais do sr. Buonarrotti, as réplicas não impactam, mas a vista da cidade é de tirar o fôlego – isso se vc o tiver recuperado depois de subir as escadarias.

Piazzale Michelangelo