3 de setembro de 2015

Salve Salvador!

Passear por Paris não é só tentar entender como vivem os parisienses, mas também saber um pouco mais sobre os estrangeiros célebres que foram viver por lá, principalmente nos “loucos” anos 20. As colinas de Montmartre foram, para a maioria, o lugar eleito para morar e produzir, e até hoje carrega toda uma aura artística que nos envolve e encanta. Partindo da Sacré-Couer, de onde se tem uma espetacular vista da cidade (torça para que o dia esteja aberto, e terá uma imagem deslumbrante!), ande sem destino e se deleite com os ateliês, os artistas de rua, as lojinhas, os crepes e as pessoas sorridentes (sim, eu sei que são turistas… e daí? eu também não sou um deles? Não precisamos fugir deles – ou de nós? – Dá uma boa tese filosófica…). Entre suas ruinhas e pracinhas, encontre o Espace Dali (é bem escondidinho mesmo, difícil até de achar), um agradável museu com mais de 300 obras do artista espanhol que escolheu o bairro (então, um dos centros de destaque da arte mundial) para viver, beber e pintar.

Montmartre

Salvador Dali  (1904 – 1989) nasceu na região da Catalunha, na Espanha, e estudou na Escola de Desenho Federal, onde iniciou a sua educação formal em artes. Em 1920, aos 16 anos, perdeu a sua mãe, uma grande incentivadora de seu talento, o que lhe causou enorme sofrimento. Um ano depois, foi viver em Madri, e passou a frequentar a Academia de Artes de San Fernando, da qual foi expulso em 1926, antes dos exames finais, após ter declarado que não havia ninguém na Academia com competência para avaliar seu trabalho (ops!). Deixou crescer o bigode, que se tornaria uma marca registrada sua, influenciado pelo estilo do pintor Velázquez (séc. XVII). Mudou-se para Montmartre em 1928 a convite do amigo Joan Miró, que o influenciou artisticamente, assim como Pablo Picasso, o qual também conheceu. Aderiu ao Surrealismo, que bombava na época, dominando as rodas de cafés da região (lembra do Dali de Meia-noite em Paris? – “Dali, Dali!”), e se tornou um ícone do movimento, do qual seria expulso posteriormente pelo poeta e crítico André Breton, líder desta vanguarda. Em 1929, conheceu sua musa Gala Éluard (russa, 10 anos mais velha que ele e casada) com quem passou a viver. Casaram-se no civil em 1934, e no religioso em 1958. Gala morreu em 1982, e Dali, deprimidíssimo, parou de produzir.

Sofá-lábios

O artista teve Dom Quixote de Cervantes como tema de muitas de suas obras. Fotos da época, que podem ser vistas no Espace Dali, retratam o irreverente jovem, em performances artísticas, vestido de Dom Quixote e lutando contra os fantasiosos moinhos de vento. Em 1924, ilustrou um livro pela primeira vez, do qual seguiriam-se outros, incluindo Dom Quixote Alice no País das Maravilhas. Tornou-se famoso pelas imagens bizarras e oníricas (fortemente influenciado pelas ideias de Freud) com excelente técnica e qualidade plásticas. Passeou por todas as áreas: performance, pintura, escultura, cinema (contribuindo com Walt Disney e Hicthcock) e até publicidade (criando o famoso logo do pirulito chupa-chups), além de beber em várias áreas do conhecimento: história, mitologia, religião, literatura, ciências, etc. Algumas de suas criações se tornariam icônicas, como os relógios moles (a ideia, que surgiu ao ver um queijo camerbert derretendo-se no calor do verão europeu, referia-se à relatividade do tempo de Einstein), o telefone-lagosta e o sofá-lábios de Mae West. Dali, com seu gênio extravagante, construiu muitas polêmicas ao seu redor, não só artísticas, condenado por muitos pelo maior interesse econômico em detrimento do artístico, mas também por posições políticas, acusado por simpatizar com Franco e Hitler (há controvérsias se era ideologia ou marketing …).

Enfim… o Espace Dali de Montmartre em Paris é demais! É amplo, mas escuro – o que dá um clima a mais de sonho, de fantasia. Infelizmente, quando eu fui, estava muito cheio, então os audio-guias estavam todos alugados (que é com a voz dele… que pena!) É a única coleção permanente de pinturas do artista na França, além de gravuras, litografias, fotografias, manuscritos, objetos, etc, e sua maior coleção de esculturas, dentre elas muitos originais importantes, como Alice no País das Maravilhas, de 1977, em que a heroína da obra-prima de Lewis Carrol pula corda com os seios à mostra (só esta obra já vale a visita, é linda!!!)

Alice no País das Maravilhas - Dali