29 de fevereiro de 2016

Spoiler : ele não morre no final!

Programei minha viagem à Itália por um ano. E programar para mim significa mergulhar de cabeça. Comprei guias, revistas de viagem, visitei sites, blogs, fiz 1 ano de curso de italiano, um curso sobre Michelangelo em italiano, programei dia a dia os passeios, fiz reservas, comprei ingressos, etc, etc, etc… E um dos pontos altos era conhecer a cidade soterrada de Pompeia e subir ao Vesúvio (sim, o vulcão, que ainda é ativo!). Um dia para cada, claro, (na minha idade, a qualidade do passeio é muito mais importante do que a quantidade de lugares visitados). Comprei os ingressos, me informei sobre os horários de trem, ônibus, a duração e as condições da caminhada, und so weiter, und so weiter…

Vesúvio

20/12 – chegada a Napoli às 18h30 (depois de umas 24 hs de viagem, check in, conexão… Será que a OMS considera o avião um lugar salubre?); 20h Carmen com regência de Zubin Metha no Teatro di San Carlo (o mais antigo da Europa);

21/12 – Quartiere Spagnolo, Caffè Gambrinus, Museo Archeologico Nazionale, Pizzaria Da Michelli…

21/12 – madrugada – virose

22/12 – virose

23/12 – virose

Ok, já deu para entender que eu peguei uma virose naquele insalubre ambiente aéreo e fiquei 48 hs de cama. Sim, de cama, sem levantar, sem fazer nada, nada, nada, semi-morta. Sim, houve uma tentativa de ir ao hospital. O seguro-saúde me indicou um que ficava a 700 m do hotel. Resolvi ir a pé porque não achei uma boa ideia vomitar num taxista napolitano. E… nos perdemos, claro. O que parecia ser uma rua reta no mapa, na verdade tinha uma bifurcação, e uma das partes – a que eu tinha que ir, of course my horse, era uma ladeira infinita (detalhe, eram 2 horas da manhã) e… sim, o hospital estava lá, mas, não, ele não funcionava há anos.

Houve mais alguns entreveros com o seguro, mas, como uma virose normal, depois de 3 dias e muito gatorade eu estava em processo de restabelecimento, mesmo sem atendimento médico.

24/12 – contra todos os meus preceitos, contratamos um passeio para Pompeia e Vesúvio no mesmo dia. Afinal, só restava um. O ônibus nos pegou às 8h no hotel, pegou outros turistas em outros hotéis, e fomos para Pompeia. O grupo foi dividido em dois (1. inglês/italiano; 2. francês). Ficamos no primeiro, junto com uma família de americanos. A guia explicava primeiro em inglês e depois fazia algumas traduções em italiano – afinal, eu tinha estudado 1 ano de italiano, queria praticar, né? Passamos apenas rapidamente pelo pão de açúcar e pelo corcovado (ainda com o entrave do presidente italiano e sua comitiva). Mas como eu não estava em minha plena forma física, foi adequado. Depois paramos para almoçar num horrível restaurante para turistas e o grupo foi redividido (1.Vesúvio; 2. Costa amalfitana). Trocamos de ônibus e motorista (que não falava uma única palavra em inglês) e ficamos sem guia, mas continuamos com a família americana.

O motorista nos deixou na entrada do parque e nos deu uma hora e meia para o passeio. Começamos a subida, que era bem íngreme. A família (composta pelo pai de meia idade e duas filhas mocinhas – a mãe que estava com um problema no joelho não subiu) vinha logo atrás de nós. Como a caminhada era puxada, a família acabou se separando um pouco – uma filha mais à frente, o pai no meio e a outra mais atrás.

Vesúvio

Quando chegamos ao fim da estradinha, paramos para observar a boca do vulcão, da qual – impressionante!!! – sai fumaça – e muita! Ainda esperamos um pouco para que uma moça que estava tirando fotos saísse para que pudéssemos tomar o lugar dela, de onde se tinha a melhor (primeira) vista do vulcão! Depois de nos recuperarmos da imagem impressionante e retomarmos a estradinha que ainda circundava toda a boca do vulcão, vimos uma moça (indiana) que corria em nossa direção desesperadamente e gritava para nós, apontando para a lojinha que tinha ali, “Is anybody there?” Ao que eu respondi, tranquilamente, “Yes”. O que será que passou pela minha cabeça? Que ela estava apertada para fazer xixi? Estava com medo de que a lojinha fechasse antes dela comprar uma lembrancinha? Qual seria a urgência dela que não seria minha também? Ao olhar a estrada à minha frente, ele estava li, caído, com os braços abertos, completamente imóvel. Era o patriarca da família americana. Corremos em sua direção. E aquela moça que estava tirando fotos na nossa frente (uma americana) já tinha iniciado as massagens cardíacas e pediu para que alguém segurasse a cabeça dele – ao que eu rapidamente atendi, colocando as duas mãos sob a sua cabeça como um travesseirinho – não sei pra que era, nem como fazer, mas não havia tempo para perguntar, imaginei que deveria ser para que o ar pudesse encontrar a passagem livre para os pulmões no momento da respiração boca a boca e tentei manter a cabeça o mais reto possível. Sim, ele estava morto, nas minhas mãos, eu vi seu rosto roxo e inchado, sua língua enrolada… Sim, ele voltou, respirou sofregamente. Foi colocado de lado, parou de respirar novamente. As massagens recomeçaram, eram muito fortes, o que exigia muita energia de quem as fazia, e a americana passou a se revezar com a indiana. Nisso, chegou o socorrista com um desfibrilador. Me afastei. Caminhei em direção à filha que estava mais à frente e foi trazida de volta. Ela estava atônita, não conseguia se aproximar, fiz com que ela se sentasse, e fui com o socorrista avisar a mãe. No meio do caminho, encontramos a outra filha “Your father had a heart attack”. Meu Deus! Descemos, encontramos a mãe, que começou a chorar. O socorrista me levou para falar com o motorista. Como ele se chamava? Não sei. Qual era o carro? Não sei, trocamos 3 vezes de carro, além do que todos os que estão aqui são iguais – brancos. Entramos no bar. Quem trouxe esta mulher? Eu não, eu não, eu não. Era uma careca. Sou eu, sou eu. Não, não é vc. Saímos do bar. Ele estava no carro e veio prontamente em nossa direção. Contamos o que houve e fomos aguardar junto com a mãe a chegada da ambulância que deveria levá-lo ao hospital, pois, de acordo com as leis italianas – muito terceiromundista isso – só um médico pode transportar um “acidentado” para o hospital. Durante a espera, o motorista, que estava consternadíssimo, me lança “Viene a Italia per incontrare la morte!”. Ainda bem que a mãe não entendia uma palavra de italiano. A espera era insuportável. Finalmente, a ambulância se aproximou, o socorrista fez todas as encenações para aterrissagem de um avião. Não havia ninguém, nem carros atravancando, o espaço para ela parar era gigante. Mas tudo isso faz parte do teatro da vida napolitana. Como a ambulância não subia por aquela estradinha, o socorrista, no seu Uno caindo aos pedações, levou o médico e a maca. A espera era mais insuportável ainda. Quando o carro voltou, com o paciente sentado no banco da frente, conversando…Ufa! Parecia outra pessoa, não era aquela cabeça morta na minha mão, parecia até mais magro, tava com uma cara ótima! Até abracei o motorista napolitano que estava quase às lágrimas. Foi aquela mulher que o salvou.