13 de março de 2015

“Tradição e Cultura”

Em O Poder do Mito, Joseph Campbell discute sobre a importância dos rituais, em especial os de passagem: a transição da infância à vida adulta (quando os homens deixavam de usar calças curtas e as encompridavam), o casamento (principalmente para as mulheres) ou os funerais. Eu, que nunca dei tanta atenção a eles, passei a percebê-los com um olhar mais crítico após essa leitura.La Tour d'Argent

Em Paris, é até difícil fugir dos rituais, principalmente gastronômicos. Como meu marido é seguidor do lema “tradição e cultura”, escolhemos o La Tour d’Argent para comemorar o seu 44o. aniversário. Se quiser um jantar tradicional ao estilo Downton Abbey (eu sei que é inglês…), este é o lugar. Aberto em 1582 – quase na mesma época do nosso Descobrimento – já foi detentor de 3 estrelas Michelin (hoje, tem apenas uma) e ostenta dentre seus comensais Henrique IV de França (diz-se que foi aqui que ele conheceu o garfo). Possui uma adega com mais de 500 garrafas! A piada do sommelier é trazer à mesa a carta de vinhos. Hahaha… Mais engraçado ainda é o próprio (o sommelier mesmo) recusar o vinho escolhido por ele (o mesmo sommelier) ao prová-lo (sim, é o sommelier – o mesmo – que prova!).  Imagine se vc recusaria um vinho do La Tour d’Argent… Estava bouchonné, ou qualquer coisa assim…. É pra estender o ritual, sacou? O prato principal é o caneton (o pato…) que vem numerado. E eu, na minha fase vegetariana, tive que comê-lo… É que é um prato para dois… Mas me esbaldei com o crepe suzette, cujo preparo é um espetáculo à parte. Mas espetáculo mesmo é a vista do Sena e da Notre Dame!!!

La Tour d'Argent

Ainda no tema tradição, Le Jules Verne na Tour Eiffel não decepciona. Como sou uma pessoa “muito simples”, escolhi o almoço, que é bem mais barato… Tá na mesma categoria Michelin (1 estrela) e o acesso ao 2o. andar (123 m) é feito por um elevador panorâmico privativo. Passar incólume por aquela multidão toda que espera para subir na torre não tem preço! Tivemos a sorte de uma visão privilegiada, pois nossa mesa ficava próxima à janela. Lindo! E gostoso, sim, muito gostoso, não é um pega turista, vá sem medo.

Apesar de Vargas Llosa dizer que, n’A Civilização do Espetáculo em que vivemos, tudo é efêmero e superficial, e o que importa é o mero entretenimento – principalmente quando registrado pelo pau (pau?) de selfie e postado no Facebook, acho que vale à pena – e muito – sentar-se num restaurante secular e olhar, não para si (pelo celular) mas pela janela, e apreciar a história… além, é claro, de uma refeição ritualística impecável que vai ficar por muito tempo na memória… (na nossa)