30 de Maio de 2015

Uma vegetariana pelo mundo – ou uma tentativa…

Desde que me conheço por gente, sou glutona. Como de tudo, e muito. Com apenas uma exceção, feijão. Nem pensar, não posso nem ver. Por causa da ditadura da feijoada, evito restaurantes estilo self-service para não ter nem que ficar encarando o dito cujo no prato alheio. Argh!  Na infância, minha alimentação se baseava no principal produto consumido pelos meus ascendentes austro-húngaros: batata. Muito mais pela “genética” do que por hábito doméstico, já que na minha casa o prato cotidiano era o tal arroz com feijão. Mas devorava todo o resto. Como classe média-baixa, carne só duas vezes por semana. E eu adorava! Com o conhecimento de que aquela carne vinha de um bicho, comecei a ficar incomodada e a criar artifícios de distanciamento – o que provavelmente todo carnívoro faz – entre o bife e a vaca, entre a coxinha e a galinha… Com o passar do tempo, isso foi me incomodando mais, e aquele hambúrguer parecia gritar a cada mordida. Com a vinda do Bartô para casa – meu weimaraner de 10 anos – ficou ainda mais complicado. Como amar um e comer o outro?

Bartolomeu

Bartolomeu

Comecei a tentativa de me tornar vegetariana. Fiz pesquisas, leituras,  e tudo só corroborava para a minha intenção de não comer mais carne. Aliás, queria mesmo era ser vegana! Pesquisei sobre empresas que fazem testes em animais e passei a boicotá-las, informei aos conhecidos, me engajei em abaixo-assinados referentes ao tema, etc, etc… Mas sou uma pessoa fraca, e cedo facilmente às tentações, principalmente quando as outras opções não são tão atraentes ou mesmo inexistentes. Ser vegana é meu sonho dourado. E inalcansável. Como se alimentar sem ovos e derivados lácteos? A menos que eu ficasse o dia todo na cozinha e carregasse uma marmitinha para baixo e para cima. Além do mais, essa coisa de radicalismo não é para mim – nasci na ditadura, a liberdade é meu guia! Mas ser vegetariana não deve ser tão difícil. Será?

Ainda nos meus estudos preliminares, que me ensinaram a ir deixando a carne aos poucos, fui passar um fim de ano na Alemanha e na Áustria. Meu! Só carne! E ainda de porco! Começando com os wurst do café da manhã (que me lembravam tanto a omama!), passando pela  salsicha do cachorro quente,  e culminando no sauerkraut e no goulasch, sem esquecer do wienerschnitzel e do eisbein, tudo cheira a carne. Bom… depois das férias, eu começo pra valer, ainda não estou habituada a uma alimentação vegetariana, ainda mais numa viagem ao exterior!

Peters Brauhaus

Peters Brauhaus

No ano seguinte, Chile e Argentina. No Chile foi moleza, frutos do mar a valer. Calma, calma, eu sei que frutos do mar – piada infame – não são frutas, nem pertencem ao reino vegetal, mas sim ao animal. Mas, de acordo com a teoria de me tornar gradativamente vegetariana, primeiro vc tira a carne vermelha, depois a de frango e, por último, os frutos do mar, incluindo os peixes, claro. Bom, eu ainda não tinha superado esta fase… Na Argentina, caos! O país cheira a churrasco! Sem contar as empanadas de carne… e o 1984 de Francis Mallmann em Mendoza! Caí em tentação… Mas vou me reerguer! O que seria da regra se não fossem as exceções? Já me diziam meus estudos de Gramática Portuguesa…

"Como água para chocolate"

“Como água para chocolate”

Próxima parada: Peru. Fácil! Frutos do mar do renomado chef Gastón Acurio! Acho que nunca vou sair desta fase do jogo… Next Stop: Paris. Barbada! Alimentação sustentável, respeito aos meios de produção, etc, etc… La Tour d’Argent, restaurante estrelado Michelin, clássico de Paris, cuja reserva teve que ser feita com 3 meses de antecedência, carro-chefe: pato! Ele vem até com certificado e numeração! Prato para dois, meu marido jamais abriria mão, além de ser o niver dele… Pensa que para por aí? Nada. Mais um clássico, Le Jules Verne! Revirei o menu, olhei de um lado, do outro, nada… Os pratos, pelo menos, eram individuais. Chamei o maître e gastei todo meu francês perguntando sobre uma opção vegetariana, ao que ele respondeu, perguntando, visivelmente indignado, se eu não comia nem peixe? É… acho que eu nunca vou avançar esta casa…