19 de junho de 2016

Veneza não é bem assim…

As pessoas se sentem super constrangidas em dizer que não gostaram de algum cartão postal consagrado. Imagine falar que Fernando de Noronha não é tudo isso, ou que as pirâmides do Egito não são tão impactantes, ou que Veneza nem é tão romântica assim? Então, é possível que suas recordações de Veneza não sejam tão doces assim, talvez um pouco diets… (no sentido primal, sem açúcar)

Fui a Veneza duas vezes, a primeira há priscas eras e a segunda no último inverno, e a lembrança que tenho é de um lugar muito frio (eu sei, fui na estação mais fria do ano, só podia fazer frio mesmo, dãã), úmido, umidíssimo, com uma bruma constante que dá um tom muito mais sombrio do que “misterioso”, como dizem alguns. O filme que vem à memória imediatamente é Morte em Veneza. Interessante é que tive visões completamente diferentes do livro, do genialíssimo Thomas Mann, que li primeiro, e do filme, do não menos genial Visconti, que vi depois. No primeiro, me parece muito claro que o arrebatamento do personagem principal pelo jovem é por causa da Beleza, o Conceito em si, e, no filme, parece uma paixão. Bom, ambos são fantásticos, nenhuma das interpretações – que talvez sejam só minhas – é maior ou menor. O ambiente soturno que está no filme é o mesmo que vi in loco em Venezia. Apesar de ser verão, época de férias, a cidade está infestada pelo cólera, o que torna tudo meio mórbido, atingindo o ápice com a morte da personagem, com sua maquiagem derretendo na praia – não é spoiler, está no título… Mas deixemos o livro pra lá!

Veneza

Andando pela cidade, nota-se como a umidade contagia tudo – no mau sentido – a começar pelo ânimo das pessoas. Todas de cara amarrada, andando de cabeça baixa dentro do capuz de suas capas de chuvas, exalando mal humor. Dizem que os venezianos odeiam os turistas, por isso são tão ranzinzas. (Mas eles vivem de quê mesmo?) Triste é ver como essa energia é absorvida por todos, inclusive pelos cães dos próprios entediados/entediantes moradores. Veneza, definitivamente, não é uma cidade para animais de quatro patas, não há parques para que eles possam correr e brincar com outros cachorros e, o pior, não há postes, para fazerem xixi. Como? Me digam, como eles vão demarcar território, se conhecer, fazer amizade? Não é à toa que vi uma peculiar cena: três pessoas conversando, sob a garoa, com suas capas de chuva – alguns cães também as usam – acompanhados de seus respectivos amigos peludos. Eles só não conversavam, latiam, cheiravam o bumbum um do outro, pulavam, sei lá, interagiam de qualquer forma, como estavam sentados de costas, DE COSTAS, um para o outro. Essa foi a cena mais triste que ilustra o humor dessa soturna cidade, que tem marca nas paredes das casas da altura da água que as atinge quando o nível das águas sobe, revelando uma tremenda umidade em seu interior. Andar pelas vielinhas de Veneza à noite, no frio, na umidade, pode parecer um tanto quanto aterrorizador, e isso será inevitável, já que é impossível usar um mapa. Tirando os três grandes pontos – Piazza San Marco, Mercado Rialto e a Estação de trem – não há como se achar; “Nous sommes complètement perdus” (foi uma das frases que ouvi entre os turistas, enquanto o mesmo acontecia conosco numa noite chuvosa).

Pode até parecer pitoresco passar uns dois ou três dias numa cidade como esta, mas imagine não ter nem água potável na própria cidade, e tudo, tudo, absolutamente TUDO mesmo, ter que chegar e sair por barco. Até os mortos! Presenciamos um cortejo fúnebre por um de seus canais. Não era exatamente um cortejo, pois, pelo que me consta, um cortejo, são várias, ou pelos algumas, pessoas, acompanhando o defunto. E, no caso, era o dito cujo, abotoado no seu paletó de madeira – que ocupava quase todo o barquinho – a ser conduzido por dois barqueiros que o levariam sabe-se lá para onde. Será que tem cemitério em Veneza, ou ele iria para a estação de trem, para o aeroporto? Ai, ai, ai, que fim longo…. Parecia até uma coisa Auto da Barca

Veneza

Além disso, tem a famosa ponte dos suspiros, nada romântica, não são suspiros de amor ou de prazer por ver a bela cidade, são os últimos suspiros emitidos por um condenado à morte ao ver a luz do dia pela última vez. Ela liga o Palazzo Ducale, próximo à Piazza San Marco, às Prigione Nove, o primeiro edifício no mundo construído para ser uma prisão. O local tornou-se turístico também por conta de seu prisioneiro mais célebre, Casanova. Preso em 1755, por levar uma vida dissoluta, possuir livros proibidos e fazer propaganda antirreligiosa, foi condenado a cinco anos de cativeiro. Consegue escapar das masmorras pelos telhados do palácio, numa fuga espetaculosa depois de ficar preso por apenas 16 meses, tornando a visita mais fantasiosa que sombria, dando um pouco de esperança à soturna Veneza…

 Prisão Veneza